Lourival Sant'Anna/AE
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'Kadafi vai lutar até o fim, mas nós também'

Najjair deixou a Irlanda para combater na terra natal do pai e agora lidera brigada

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Reportagem Especial

Voluntários contra o regime

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Hossam Najjair era empreiteiro da construção civil em Dublin, onde nasceu há 32 anos, filho de pai líbio e mãe irlandesa. Até que a guerra civil no país de seu pai mudou sua vida para sempre. Depois de observar que os combatentes estavam lutando em suas próprias cidades contra as forças de Muamar Kadafi, o marido de sua irmã, Mahdi Harati, decidiu criar a Brigada Revolucionária de Trípoli, de onde as famílias de ambos vieram.

Em março, Harati, Najjair e outros emigrantes e filhos de emigrantes de Trípoli exilados no mundo inteiro começaram a se juntar nas Montanhas de Nafusa, perto da fronteira com a Tunísia. "No início, éramos 10, depois 20, depois 500, e dois meses antes de sairmos de Nalut (nas montanhas), 1,2 mil. Perdemos 100 homens ao chegar a Trípoli", recorda Najjair, subcomandante da brigada. Depois de treinar por cinco meses, Harati, Najjair e seus homens partiram há três semanas de Nalut para Zawiya, 245 km a oeste. Lá, encontraram resistência e após intensa batalha partiram no dia 20 em direção a Trípoli.

"Saímos de Zawiya no raiar do dia, e chegamos à Praça dos Mártires (chamada de Praça Verde por Kadafi) naquela mesma noite, depois de lutar sem parar ao longo do caminho", recorda Najjair, na pista do aeroporto de Mitiga, no centro de Trípoli, transformado em base da Brigada de Trípoli. "Fui o primeiro a entrar, com este jipe, no quartel-general da Brigada Khamis (comandada por um filho de Kadafi, 20 km a oeste de Trípoli) e na Praça dos Mártires."

Três homens morreram no jipe: dois estavam no teto e um, no banco de trás, que teve de ser arrancado por causa do sangue. Duas balas de fuzis furaram a porta do motorista e dois vidros de trás espatifaram. "Ofereceram-me um jipe novo, mas me sinto apegado a este", diz Najjair. O velho Mitsubishi Pajero tem placas da Alemanha.

O olhar de Najjair fica distante quando fala da morte de seu amigo Atef, que estava ao seu lado na Brigada Khamis. "Ele estava no teto do carro e levou um tiro na cabeça", recorda. "Eu o carreguei para uma ambulância, fiquei louco por alguns instantes, mas depois entrei de novo no meu carro." Um míssil disparado por um avião da Otan caiu a cerca de 300 metros.

"Cheguei à Praça dos Mártires e vi dois policiais de pé lá, chocados com o que estava acontecendo", conta Najjair. "Eles não conseguiam entender como chegamos lá tão depressa. Depuseram suas armas, mas havia fogo de artilharia pesada vindo contra nós. Dei ré no jipe, pulei para fora e deixei que outros entrassem para limpar a praça."

"Meu momento mais glorioso foi erguer a nova bandeira líbia no topo da ponte próxima, ainda sob fogo, dando a nossos combatentes um pouco de coragem para avançar", diz o subcomandante. A brigada dispõe de artilharia antitanque de 14,5 mm e antiaérea de 23 mm, foguetes e fuzis, principalmente os lendários Kalashnikov. Mas Najjair anda com um Drogonov romeno. "É meu "baby"."

"Eu nunca tinha pegado em armas antes de chegar aqui", observa o empreiteiro. Ele e os outros membros da brigada, a maioria nascida ou exilada em diversos países do mundo, receberam instruções de militares do Catar e da França, que também ajudaram na compra de armas. Segundo Najjair, tudo foi adquirido com dinheiro dos rebeldes líbios, ajudados pela venda de petróleo e por doações de empresários, incluindo o uniforme que ele e outros combatentes usam, comprado do Exército holandês.

Seu cunhado Harati, comandante da brigada, tampouco tinha experiência militar. Proveniente de uma família oposicionista, ele foi preso na adolescência em Trípoli, por suas atividades políticas. Daí vêm suas credenciais. Najjair, em contrapartida, diz que tinha parentes influentes no regime e poderia conseguir uma boa colocação. "Mas isso não seria eu."

O subcomandante conta que ele mesmo capturou entre 25 e 30 soldados leais a Kadafi. Questionado sobre as evidências de execuções sumárias de kadafistas, cometidas pelos seus homens, Najjair admitiu: "Algumas dessas execuções ocorreram na minha frente". Ele justificou dizendo que os homens de Kadafi violentaram mulheres, o que para os líbios é pior do que a morte. "Na minha opinião, a morte é rápida demais para eles." O subcomandante, que aprendeu árabe quando morou em Trípoli dos 9 aos 11 anos e dos 20 aos 22 anos, diz que tem instruído os jovens que andam armados de fuzis pela cidade a não atirar por qualquer coisa.

Ele rejeita comparações da Líbia com o Iraque. "Lá você tem muitas facções diferentes numa guerra contra os Estados Unidos", descreve Najjair. "Aqui, 95% das pessoas têm o mesmo objetivo, e os outros 5% não serão capazes de se impor sobre essa enorme maioria."

"Quando cheguei aqui, pensei que o regime era só ruínas", recorda Najjair. "Obviamente não é assim. Ele (Kadafi) vai lutar até o fim, mas nós também. Aonde quer que ele vá, vamos atrás dele."

Najjair percorre a imensa pista do aeroporto, antiga base da Força Aérea, ultimamente destinada a voos executivos. Há 20 aviões estacionados. Ele se diverte subindo num caça russo MiG-23 e gritando: "A Líbia é livre!"

Najjair reconhece que a guerra o endureceu. "Vi a morte na minha frente", disse ele. "Essa guerra me mudou como pessoa. Eu era um irlandês normal, de mente aberta, que daria a qualquer um o benefício da dúvida. Agora ponho um ponto de interrogação em cada pessoa que vejo", constata. "Fiquei assim porque essa é uma guerra suja. Não gosto da forma como essa guerra é travada. Você está patrulhando a cidade e tentando dar segurança para os moradores e um franco-atirador pode atingi-lo de qualquer lugar." Najjair faz uma pausa e conclui: "Espero que essa amargura vá embora depois que eu deixar tudo isso para trás".

Ofensiva

Quando a Brigada Revolucionária de Trípoli entrou na capital já tinha 1,2 mil homens, a maioria emigrantes

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