Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Kamala aceita nomeação histórica e diz que não há vacina contra o racismo

Senadora é a primeira mulher negra que concorre à Casa Branca por um grande partido e fez do discurso na convenção democrata uma de suas manifestações mais fortes contra o racismo

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 00h39
Atualizado 20 de agosto de 2020 | 10h00

A senadora Kamala Harris aceitou na noite desta quarta-feira, 19, a nomeação histórica do Partido Democrata para disputar a vice-presidência como companheira de chapa de Joe Biden. Kamala é a primeira mulher negra que concorre à Casa Branca por um grande partido e fez do discurso desta noite uma de suas manifestações mais fortes contra o racismo. "Vamos ser claros: não há vacina para o racismo. Nós temos de fazer o trabalho", disse Kamala.

Kamala falou sobre o sofrimento com perdas causadas pela pandemia de coronavírus e sobre o fato de negros, latinos e indígenas terem sido atingidos desproporcionalmente mais do que os brancos. "Isso não é uma coincidência. É efeito do racismo estrutural. Das desigualdades na educação e tecnologia, acesso a saúde e moradia, segurança no trabalho e transporte. A injustiça no acesso a saúde reprodutiva e maternal. No excesso de uso da força pela polícia. E no nosso sistema de justiça criminal", disse a candidata a vice.

"O vírus não tem olhos e ainda assim ele sabe exatamente como nós vemos uns aos outros e como tratamos uns aos outros", disse Kamala.

A terceira noite da festa democrata foi batizada com o mesmo nome dado por Barack Obama a um discurso crucial da campanha de 2008: Uma união mais perfeita. Na época, Obama falou pela primeira vez sobre a questão racial e admitiu que os EUA eram um país racialmente dividido. Com Kamala Harris na chapa, os democratas querem sinalizar que estão comprometidos com a diversidade no partido e também com o trabalho de união da sociedade.

O tema já era caro a Biden, que foi vice de Obama e herdou capital político do ex-presidente junto ao eleitorado negro, mas ganhou especial importância depois da ebulição social de junho, quando americanos protestaram contra o racismo após a morte de George Floyd.

A eleição deste ano, disse a candidata, é um "ponto de inflexão". "O caos constante nos deixa à deriva. A incompetência nos dá medo. A insensibilidade nos faz sentir sozinhos. É demais", disse ela. "Neste momento temos um presidente que transforma nossas tragédias em armas políticas. Joe vai ser um presidente que irá transformar nossos desafios em propósitos", disse a candidata a vice.

Filha de pai jamaicano e mãe indiana que se conheceram nos Estados Unidos marchando pelos movimentos civis, Kamala explorou sua trajetória pessoal no discurso desta noite.

A candidata a vice disse que um país de união parece distante com Donald Trump na presidência. Ao dizer que carrega valores ensinados por sua mãe, disse que é preciso ter "uma visão da nossa nação como uma comunidade amada onde todos são bem-vindos, não importa nossa nossa aparência, de onde viemos ou quem amamos".

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"Um país onde podemos não concordar em cada detalhes, mas estamos unidos em torno da crença fundamental de que todo ser humano tem um valor infinito e merece dignidade e respeito", afirmou a senadora. "Um país em que nos preocupamos uns com os outros, onde nós ascendemos e caímos como um só, onde nós enfrentamos nossos desafios e celebramos nossos triunfos. Juntos. Hoje, esse país parece distante. O fracasso de Donald Trump custou vidas e meios de subsistência", disse ela.

Kamala é vista como uma senadora pragmática e moderada, disposta a flexibilizar opiniões para compor com o partido. A escolha de seu nome deve o efeito de acenar à ala progressista, que cobra por mais diversidade no partido, ao mesmo tempo que mantém a percepção de que Biden fará um governo de centro.

Ela foi procuradora-geral da Califórnia antes de ser eleita senadora em 2016. Seu passado como procuradora chegou a ser um problema entre a ala progressista do partido, que a acusa de não ter pressionado pela reforma do sistema criminal americano. Em junho, no entanto, Kamala conseguiu diminuir o volume das críticas ao marchar ao lado dos manifestantes que pediram o fim do racismo nas abordagens policiais, após a morte de George Floyd. 

No discurso, ela voltou a lembrar da amizade com Beau Biden, filho de Joe Biden e sua conexão pessoal com o companheiro de chapa. Beau ocupava o cargo de procurador-geral de Delaware quando ela tinha o mesmo cargo na Califórnia, mas morreu em decorrência de um tumor no cérebro em 2015.

Durante as últimas três noites, os democratas têm apresentado Trump como um presidente inexperiente, incapaz de liderar o país em um momento de crise e sem comprometimento com os americanos. A ex-secretária de Estado e candidata derrotada do partido democrata em 2016, Hillary Clinton, foi na mesma linha. "Eu gostaria que Donald Trump tivesse sido um presidente melhor. Mas, infelizmente, ele é quem ele é", disse em discurso na mesma noite. 

Os democratas têm tentado mostrar que uma grande coalizão contra Trump foi construída, abarcando as alas progressista e moderada do partido, as diferentes gerações e até alguns republicanos descontentes. O engajamento do senador independente Bernie Sanders na campanha deste ano foi um sinal de que o partido está mais unido do que em 2016, em torno de um inimigo comum.

Para vencer em novembro, Biden precisa que um eleitorado tipicamente democrata se empolgue para votar em escala maior do que o registrado quando Hillary Clinton disputou. Por isso, é crucial energizar jovens, negros, latinos, mulheres que moram nos subúrbios e alguns independentes e moderados que estiveram desgostosos com a política. 

 

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