Karadzic comparece a tribunal da ONU e diz temer por sua vida

O ex-líder sérvio RadovanKaradzic compareceu nesta quinta-feira, pela primeira vez,diante de um tribunal de crimes de guerra da ONU a fim deresponder por acusações de genocídio. Na audiência, o réu disseque teme por sua vida. Karadzic, detido na semana passada depois de ficar 11 anosforagido, usava um terno escuro e, aparentemente mais magro,permaneceu sentado entre dois guardas. Algumas vezes, enxugou atesta e soltou declarações em sérvio. O homem que liderou a República da Sérvia durante a Guerrada Bósnia (1992-95) é o mais conhecido suspeito de crimes deguerra dos Bálcãs a ser preso desde Slobodan Milosevic,presidente da Sérvia, que morreu na prisão em 2006, antes dotérmino de seu julgamento. "O senhor se chama Radovan Karadzic, não é?", perguntou-lheo juiz Alphons Orie. "Sim, me chamo", respondeu o réu, que noinício do julgamento limitou-se a responder com poucaspalavras. Mas com o passar do tempo, ele demonstrou-se maisanimado e provocador. O juiz observou que Karadzic estava sozinho. Sorrindo, oréu respondeu: "Eu tenho um conselheiro invisível, mas decidirepresentar-me sozinho." Karadzic depara-se com duas acusações de genocídio, umapelo cerco de 43 meses a Sarajevo e outra pelo massacre, em1995, de 8.000 muçulmanos em Srebrenica, a pior atrocidadeocorrida na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Ele disse que sua prisão era ilegal: "Em Belgrado eu fuipreso irregularmente. Fui sequestrado por três dias. Não tivedireito a um telefonema nem mesmo a um SMS (mensagem de textopor telefone celular)." Karadzic também atacou o ex-mediador da Organização dasNações Unidas (ONU) para a paz na Bósnia, Richard Holbrooke,afirmando: "Se Holbrooke quer minha morte e lamenta que nãohaja sentença de morte nesta corte, eu quero saber se seusbraços são longos o bastante para me alcançarem aqui". Ao ser questionado sobre se desejava ouvir a denúncia,Karadzic respondeu: "Não tenho interesse em que alguém leiapara mim a denúncia." O acusado pediu para ver a nova denúncia preparadaatualmente pela promotoria e requisitou tempo para avaliá-laantes de manifestar-se. Karadzic compareceu diante da corte após ter passado suaprimeira noite em uma cela do centro de detenção do tribunal decrimes de guerra, em Haia. SEM BARBA Depois de ter sido detido em Belgrado, o réu livrou-se dalonga barba e dos cabelos compridos que ajudaram a mantê-loescondido nos anos que se seguiram ao final da guerra. Elefingia ser um praticante de medicina alternativa. Karadzic foi levado de avião para a Holanda na quarta-feirade manhã. O comportamento do réu -- uma figura extravagante quandoera líder da Sérvia -- oferecerá indícios a respeito de suapostura durante o processo e sobre se os juízes podem esperardele a mesma atitude de desafio adotada por Milosevic, dentrodaquela mesma sala. Como o presidente sérvio, Karadzic sugeriu que desejadefender-se sozinho, uma manobra que acabaria por adiar ojulgamento. O procurador-geral do tribunal, Serge Brammertz, disse queseria capaz de conduzir o caso de forma adequada, em vista daexperiência anterior com Milosevic. "Claro que demorará vários meses antes de a promotoria e adefesa estarem prontas para começar. Esse será um julgamentocomplexo, mas estamos totalmente cientes da importância de quevenha a ser eficiente", afirmou a repórteres. O advogado de Karadzic na Sérvia disse que seu clienteusaria o prazo de 30 dias de que dispõe para manifestar-se pelaprimeira vez a respeito das acusações. Pelas regras da corte,se o réu não quiser manifestar-se, então se registra umadeclaração de "inocente" em nome dele. A extradição do acusado para Haia representa um ponto-chavedos esforços feitos pela Sérvia para aproximar-se da UniãoEuropéia (UE). A prisão dele foi vista como um sinalpró-Ocidente da parte do novo governo sérvio, empossado nestemês. A França, que ocupa atualmente a Presidência rotativa daUE, disse em um comunicado que a prisão de Karadzic e atransferência dele "significam passos importantes no processode reconciliação dos Bálcãs ocidentais e de reaproximação entrea Sérvia e a Europa".

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