Karzai admite receber dinheiro do Irã

Presidente afegão diz que governo americano sabe da ajuda financeira de Teerã; Casa Branca questiona intenções de Ahmadinejad

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Em mais um golpe em suas relações com os Estados Unidos, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, admitiu ontem que seu governo recebe malas de dinheiro do Irã. O Departamento de Estado, respondendo às declarações, disse ter conhecimento da prática, mas questionou as motivações das contribuições do regime de Teerã.

"O governo do Irã dá assistência ao meu governo com cerca de 500 mil a 700 mil duas vezes por ano em uma ajuda oficial. Isso é transparente e algo que discuti até mesmo com o ex-presidente George W. Bush. Não há nada a esconder. Os EUA fazem a mesma coisa. Eles dão malas de dinheiro. É a mesma coisa", disse Karzai.

As declarações foram feitas em resposta a uma reportagem do New York Times, afirmando que um dos principais assessores presidenciais recebeu uma mala de dinheiro de Teerã durante visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a Cabul em agosto. Segundo analistas, o objetivo seria minar ainda mais as relações entre o Afeganistão e os EUA, que se deterioraram recentemente.

Karzai insistiu que as suas relações com o Irã são normais entre dois vizinhos. O dinheiro, segundo ele, foi usado para pagar despesas do palácio presidencial e salários. "Pagamentos em dinheiro são feitos por vários países. E continuaremos aceitando dinheiro do Irã", disse Karzai.

As companhias de segurança privadas contratadas pelo governo americano também foram alvo de ataques de Karzai. Segundo o presidente, as milícias privadas são usadas para matar civis afegãos. A declaração foi feita dias após documentos oficiais do governo dos EUA terem sido divulgados pelo site WikiLeaks, indicando que agências de segurança terceirizadas mataram civis na Guerra do Iraque - não há informações se o mesmo ocorreu no Afeganistão.

Os EUA não condenaram a atitude de Cabul de receber dinheiro, mas questionou os motivos que levam Teerã a enviar ajuda. "Continuamos céticos sobre os motivos iranianos por causa de seu histórico de atuar como agente desestabilizador na região. Esperamos que o Irã tenha uma atitude responsável para o futuro afegão", disse P. J. Crowley, porta-voz do Departamento de Estado. Ele admitiu que os americanos enviaram malas com dinheiro ao Afeganistão, mas a prática não é mais usada. O Irã, majoritariamente xiita, era inimigo do Afeganistão antes da queda do Taleban, que segue uma corrente radical sunita. Os dois países estiveram próximos de uma guerra nos anos 90.

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