Karzai beneficia-se com votos de 800 urnas falsas, dizem observadores

Zonas eleitorais que existiam apenas no papel atribuíram milhares de cédulas em favor do presidente afegão

Dexter Filkins e Carlotta Gall, THE NEW YORK TIMES, CABUL, O Estadao de S.Paulo

08 de setembro de 2009 | 00h00

Partidários do líder afegão, Hamid Karzai, prepararam centenas de zonas eleitorais falsas nas quais ninguém votou, mas tiveram centenas de votos registrados em favor da reeleição do presidente, de acordo com alguns dos principais funcionários do governo e do Ocidente encarregados de observar as eleições do dia 20. As zonas falsas, cujo número chegava a 800, existiam apenas no papel, disse um diplomata ocidental no Afeganistão, sob a condição de não ter o nome publicado. Funcionários locais relataram que centenas - em alguns casos, milhares - de votos para Karzai na eleição do mês passado são provenientes dessas zonas. O padrão foi confirmado por outro funcionário ocidental designado para o Afeganistão.

"Acreditamos que cerca de 15% das zonas eleitorais não abriram no dia das eleições", disse o diplomata ocidental. "Mas ainda assim foram registrados nelas milhares de votos para Karzai."

Além de criar zona eleitorais falsas, os partidários de Karzai também assumiram o controle de outras 800 secções eleitorais legítimas, usando-as para registrar de forma fraudulenta dezenas de milhares de votos adicionais para o presidente, disseram os funcionários do governo.

Como resultado, segundo eles, em algumas províncias a quantidade dos votos para Karzai supera em 10 vezes o número de pessoas que foram às urnas. "É difícil de determinar é a magnitude da fraude", disse o diplomata ocidental.

O número cada vez maior de relatos de fraude representa um grave problema para o governo de Barack Obama, que destacou para o Afeganistão um contingente de 68 mil soldados para reverter os avanços dos insurgentes do Taleban. Funcionários americanos esperavam que a eleição ajudasse a afastar os afegãos do Taleban ao oferecer a eles uma maior participação no governo. Em vez disso, Obama enfrenta agora a perspectiva de ser obrigado a defender pelos próximos cinco anos um governo afegão considerado ilegítimo.

"Trata-se de um caso de fraude maciça", disse o diplomata.

De acordo com funcionários do governo, a maior incidência de fraudes em favor de Karzai deu-se nas áreas de maioria pashtun no leste e no sul do país, nas quais os funcionários dizem que a presença dos eleitores em 20 de agosto foi excepcionalmente baixa. Entre tais regiões inclui-se a província natal de Karzai, Kandahar, onde os resultados preliminares indicam que mais de 350 mil votos foram depositados nas urnas e aguardam contagem. Mas funcionários ocidentais estimam que apenas cerca de 25 mil pessoas tenham de fato votado na região.

Wahid Omar, principal porta-voz da campanha de Karzai, reconheceu no domingo a existência de casos de fraude cometidos por candidatos diferentes. Mas ele acusou os adversários do presidente de tentarem marcar pontos políticos por meio de acusações sensacionalistas na mídia. "Houve casos - recebemos relatos de inúmeros casos - e nossa opinião é a de que a única instância na qual esse tipo de questionamento pode ser feito é a Comissão de Protestos Eleitorais", disse ele.

Funcionários do governo americano fizeram poucas manifestações públicas sobre as acusações de fraude. Um funcionário graduado americano disse no domingo que as alegações eram investigadas nos bastidores. "A ausência de pronunciamentos públicos não significa a ausência de preocupação e providências em relação a tais assuntos", disse o funcionário.

Mas um outro representante ocidental em Cabul disse que havia divisões na comunidade internacional e nos círculos da política afegã a respeito de qual seria a melhor maneira de proceder. Esse funcionário disse acreditar que nos próximos quatro ou cinco dias seria decidido se o processo eleitoral como um todo acabará aceito ou recusado. "Chegou o momento decisivo", disse ele.

Esse discurso foi reforçado no domingo pelo vice-diretor da Comissão Eleitoral Afegã Independente, que afirmou que o grupo estava desconsiderando os votos registrados em 447 zonas eleitorais por causa das acusações de fraude. O vice-diretor, Daoud Ali Najafi, disse que o número de votos fraudados ainda não tinha sido determinado nem qual seria o porcentual representado por eles diante do total de votos. Ele não deu detalhes de como a fraude foi descoberta.

Com aproximadamente três quartos dos votos já contabilizados, Karzai lidera com quase 49% da preferência, enquanto o principal desafiante, Abdullah Abdullah, registra 32%. Caso nenhum dos candidatos receba mais de 50% dos votos, será realizado um segundo turno.

Funcionários em Cabul dizem que serão necessários meses até que a Comissão de Protestos Eleitorais, formada principalmente por ocidentais indicados pela ONU, seja capaz de declarar um vencedor. Um período tão longo sem um líder bem instalado na presidência pode desestabilizar um país já abalado pela divisão étnica e por um movimento de insurgência cada vez mais violento.

Um candidato presidencial da oposição, Ashraf Ghani, ex-ministro das Finanças, disse que a grande proporção de fraudes no dia da eleição prejudicou muito o processo político que lentamente se construía no Afeganistão. "Por cinco anos Karzai foi meu presidente", disse ele em entrevista concedida em sua residência em Cabul. "Agora, quantos afegãos podem considerá-lo seu presidente?"

NÚMEROS OFICIAIS

48,6% dos votos

apurados foram para o presidente Hamid Karzai

31,7% dos votos

foram obtidos pelo ex-chanceler Abdullah Abdullah

74% das urnas

já foram apuradas

2.301 denúncias

de fraude foram apresentadas

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