Karzai reúne-se com Bush em busca de solução para violência

Para especialistas, banho de sangue só termina com amplo acordo, que envolva também os rebeldes do Taleban

Angela Perez, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2007 | 00h00

O presidente dos EUA, George W. Bush, e seu colega afegão, Hamid Karzai, prometeram ontem eliminar de vez o Taleban. Karzai qualificou o grupo radical islâmico de uma força derrotada que ataca civis, mas não ameaça seu governo. Ele se reuniu ontem com Bush na residência de Camp David para discutir a violência no Afeganistão e a ameaça de militantes escondidos do outro lado da fronteira com o Paquistão. "Nosso inimigo ainda está lá, derrotado, mas ainda escondido. Nossa missão é completar o trabalho e tirá-los de seus esconderijos", disse Karzai.Bush, que tem se mantido na defensiva sobre a busca a Osama bin Laden, afirmou estar confiante de que, com informações adequadas, os EUA e o Paquistão capturarão o líder da Al-Qaeda. Mas não disse se os EUA pediriam permissão ao governo paquistanês para ir atrás dos militantes no território do Paquistão, onde funcionários de inteligência acreditam que Bin Laden esteja.Bush e Karzai demonstraram discordância sobre a questão do Irã. Em entrevista à CNN, Karzai havia qualificado Teerã como "uma ajuda e uma solução". No entanto, durante a entrevista conjunta após o encontro, Bush reagiu à declaração de Karzai, afirmando que seria "muito cauteloso sobre a afirmação de que a influência iraniana no Afeganistão é positiva".Na véspera do encontro, Karzai fez uma descrição sombria da vida em seu país, dizendo que a segurança piorou e os EUA e aliados estão tão longe de capturar Bin Laden quanto estavam anos atrás.Quase sete anos após a deposição do Taleban, o Afeganistão é ainda um país violento, repleto de armas, onde chefes tribais e funcionários locais impõem suas vontades. O Taleban voltou ao sul do Afeganistão, matando soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) com técnicas copiadas dos rebeldes no Iraque. Mais de 6.500 pessoas foram mortas nos últimos 18 meses - o período mais sangrento desde que a milícia foi deposta pelas forças lideradas pelos EUA.No ano passado, foram cometidos 123 atentados suicidas, um número cinco vezes maior que o de 2005. No entanto, a ameaça do Taleban de uma ampla ofensiva com homens-bomba contra o governo afegão não se concretizou, aparentemente por causa das grandes operações lançadas pelas forças dos EUA e da Otan, que têm deixado uma média diária de 40 mortos. Após reagrupar-se no vizinho Paquistão, o Taleban vem lançando uma onda de atentados contra as forças de segurança paquistanesas. No Afeganistão, mais de 700 civis morreram desde janeiro, disse ao Estado o professor Marc W. Herold, da Universidade de New Hampshire, que faz um acompanhamento extra-oficial sobre o número de mortos no país. Segundo funcionários afegãos, pelo menos 330 civis foram mortos este ano nos ataques aéreos das forças estrangeiras contra supostos alvos do Taleban. O elevado número de mortes tem provocado hostilidade e protestos da população. ATAQUES SUICIDAS"Em 2006, houve um aumento significativo nos ataques suicidas e o dobro de atentados a bomba nas estradas. Houve ainda um grande aumento no número de vítimas entre civis, tanto por atentados suicidas como em incidentes durante ações das forças internacionais. Se esses problemas e outros não forem resolvidos podem prejudicar as conquistas dos últimos anos", disse ao Estado Tom Koenigs, enviado especial da ONU e chefe da Missão de Assistência no Afeganistão (Unama).Os ataques suicidas eram impensáveis antes no Afeganistão, pois eram considerados uma grave violação do Islã, especialmente entre a etnia pashtun - à qual pertence a maioria dos membros do Taleban. Mas os comandantes taleban e da Al-Qaeda deturparam a interpretação do Alcorão para justificar os atentados.Segundo Koenigs, os taleban aparentemente não sofrem com falta de dinheiro, armas ou candidatos a suicidas e contam com o auxílio da Al-Qaeda.Mais de 35 mil soldados da Otan, entre eles 11 mil americanos, estão hoje no Afeganistão. No entanto, alguns países aliados disseram que seus soldados poderiam ser enviados apenas a partes do país onde há menos violência do que no sul e no leste. Os EUA têm outros 11 mil soldados no país, em missões de contraterrorismo e treinamento das forças afegãs.Cerca de 35 mil soldados afegãos já foram treinados pelas forças ocidentais desde 2003 e o governo quer dobrar esse número até outubro de 2008. Contudo, as autoridades afegãs vêm pedindo uma maior ajuda para financiar o recrutamento, treinamento e equipamento de seus soldados e policiais. Apenas no começo do ano o governo afegão conseguiu aumentar o soldo dos soldados de US$ 70 para US$ 100 mensais. O Congresso dos EUA aprovou em 25 de maio um pacote de US$ 100 bilhões para as guerras no Iraque e no Afeganistão. Segundo o governo americano, o novo pacote ajudará a equipar as forças afegãs com helicópteros, armas pesadas, veículos blindados e equipamentos de comunicações que lhes darão maior capacidade de atuar contra o Taleban. "A solução para o Afeganistão não é militar. Infelizmente, a construção de uma nação significa chegar a um novo acordo político que deveria envolver o Taleban e não vejo nenhuma possibilidade disso. Sem um acordo amplo, reconstrução e desenvolvimento não são possíveis", disse ao Estado a especialista em democracia e reconstrução pós-conflito Marina Ottaway, do Carnegie Endowment for International Peace.No começo do ano, o Senado afegão aprovou uma moção pedindo ao governo que mantenha conversações diretas com o Taleban e outros opositores para tentar pôr fim ao derramamento de sangue. A moção foi aprovada em meio ao crescente descontentamento da população com o governo Karzai por causa do elevado número de civis mortos pelas forças ocidentais, a corrupção e o fracasso no esforço de melhorar a vida dos afegãos (leia abaixo).Para ela, os EUA são o principal motivo de o governo afegão não ter iniciado conversações com o Taleban. "Os EUA vêem o Taleban e a Al-Qaeda como inimigos a serem eliminados, não como grupos com os quais se deva negociar. Não sei o que Karzai realmente pensa sobre a questão, mas é claro que ele não negociará com o Taleban se quiser continuar recebendo apoio americano", disse.Koenigs, o enviado da ONU, acredita que a reconciliação e a paz são essencialmente algo que o governo e a população afegã têm de alcançar sozinhos. "Isso não pode ser imposto pela comunidade internacional."Para muitos analistas, o fracasso do Paquistão em impedir a passagem de combatentes ao longo de sua porosa fronteira de 2.365 quilômetros com o Afeganistão é a principal causa do ressurgimento do Taleban.Aliado-chave dos EUA na luta contra o terrorismo, o Paquistão alega que a insurgência é basicamente um problema afegão, alimentado pela frustração com a pobreza e a insatisfação com o governo. O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, vem sofrendo intensa pressão da Casa Branca e dos países da Otan para que assuma o controle sobre as semi-autônomas áreas tribais - que militantes paquistaneses, afegãos e estrangeiros têm usado como esconderijo."O abrigo seguro do Taleban no Paquistão é algo que deve ser tratado de forma mais rigorosa", disse ao Estado Steven Ross, do Centro Internacional de Estudos Estratégicos, de Washington. "O Taleban indiscutivelmente tem apoio direto do serviço de inteligência paquistanês e apoio indireto do governo de Islamabad." FRASE"A solução para o Afeganistão não é militar. A construção de uma nação significa chegar a um novo acordo político que deveria envolver o Taleban e não vejo nenhuma possibilidade disso. Sem um acordo amplo, reconstrução e desenvolvimento não serão possíveis"Marina Ottaway, analista do Carnegie Endowment

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