Lorenz Huber for The Washington Post
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Kashgar, uma China com cara de Coreia do Norte 

Região onde a minoria muçulmana uigur frequenta campos de reeducação tem vigilância estatal severa

Anna Fifield / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2020 | 04h30

KASHGAR, CHINA - A primeira dupla de policiais estava esperando na verificação de temperatura antes da retirada da bagagem no aeroporto na região oeste de Xinjiang na China. “Passaportes”, disseram eles, enquanto os três jornalistas estrangeiros saíam de um voo doméstico de Pequim.

Quando perguntamos por que estávamos sendo levados para um canto, disseram que precisávamos saber como usar máscaras porque havia ocorrido um surto do novo coronavírus em Xinjiang em julho. Estávamos usando máscaras. Eles fotografaram nossas páginas de informações e vistos de jornalistas.

Foi o início de quatro dias de intensa vigilância e pontos de verificação incômodos para dificultar reportagens e garantir que a população local tivesse medo de falar. Havia os carros que nos seguiam por toda parte e os Keystone Kops, homens que pulavam atrás de arbustos ou fingiam falar em seus telefones enquanto obviamente nos seguiam.

Depois, havia “Michael” e “Smith”, os oficiais do Departamento de Segurança Pública que nos chamavam repetidamente ao saguão do hotel para insistir que seguíssemos os regulamentos locais para reportagens que, entre outras coisas, exigiam que obtivéssemos permissão de qualquer pessoa para entrevistá-la. Não muito depois, aturamos uma discussão ridícula sobre se precisávamos que um prédio público desse permissão antes de podermos fotografá-lo.

Esta viagem a Kashgar foi a última expedição de reportagem que faria depois de 10 anos na Ásia. Mas me fez lembrar não da China, mas de uma pauta anterior: a Coreia do Norte.

A cidade evocativa, o lar da cultura uigur, que já foi uma parada na rota da seda, foi transformada em uma aldeia Potemkin, como Pyongyang, onde é impossível discernir onde termina o real e começa a encenação.

A primeira vez em Kashgar foi em 2006 como turista, cruzando a fronteira com o Quirguistão. Lembrava dela como um lugar mágico de pessoas uigures que pareciam da Ásia Central e falavam uma língua turca escrita em alfabeto árabe, como uma cidade de figos frescos e fumaça de kebab e um turbulento mercado de animais de domingo, como um destino surpreendente e encantador que por acaso estava dentro das fronteiras da China.

Antes de voltar para Kashgar, desenterrei minhas fotos daquela viagem. Encontrei imagens da famosa mesquita Id Kah, cheia de atividades. Fotos de homens com barbas e mulheres com lenços na cabeça e crianças sorrindo e posando para a câmera. Me perguntei o que teria acontecido com essas crianças, muitas agora na casa dos 20 anos.

Nos últimos 4 anos, o governo chinês deteve mais de 1 milhão de uigures em campos de reeducação destinados a privá-los de sua cultura, idioma e religião. Tiveram que raspar a barba e deixar o cabelo à mostra. Foram obrigados a jurar lealdade ao Partido Comunista Chinês. Crianças foram tiradas de seus pais e colocadas em orfanatos.

De volta a Kashgar, à primeira vista, tudo parecia relativamente normal. Na Cidade Velha, as famílias iam ao mercado noturno, comiam pilhas de carne e pão. Podia-se escutar as crianças rindo pelas janelas abertas acima do térreo. Havia até jovens – os principais alvos da campanha de detenção, que era ostensivamente sobre a desradicalização – nas ruas novamente.

Andando pelas ruas, fui dominada pela mesma sensação de tristeza misturada com raiva que senti ao fazer reportagem em Pyongyang. Sabia que era uma espécie de Show de Truman, mas não conseguia ver as bordas do set. Eu podia ver o vazio nos olhos das pessoas e sentir um peso palpável no ar.

Alguma das pessoas que vi em Kashgar foi afetada pela campanha de “reeducação”? Quase com certeza. Mas eu não poderia perguntar a elas. Assim como em Pyongyang não tentei entrevistar as pessoas nas ruas ou nas lojas, como faria em qualquer outro lugar do mundo.

Fazer isso poderia colocar essas pessoas em grave perigo se fosse descoberto que falaram com uma estrangeira, e nada menos que uma jornalista estrangeira. Eu adoraria conversar com alguém que já passou pelos campos – mas estava ciente dos riscos que representava para as pessoas se tentasse tratar de assuntos delicados. Ou falar com elas de qualquer maneira.

Então fiz algo reprovável para um jornalista: não puxei conversa na rua. Não fiz perguntas em lojas, parques ou táxis. Exceto por discussões com oficiais de segurança, não me aprofundei. Tudo que eu podia fazer era observar e ser observada.

Semelhanças

Quando cheguei à China, há pouco mais de dois anos, estava terminando um livro sobre Kim Jong-un e estava imersa na Coreia do Norte. Tentei me impedir de olhar para a China pelas lentes de seu vizinho paranoico. Mas Xi Jinping, que assumiu o poder em 2013, não tornou fácil manter meus pensamentos a respeito da Coreia do Norte afastados. Ainda há um nível de liberdade, comércio e vibração aqui que é inimaginável do outro lado da fronteira nordeste, mas em alguns dias a China realmente parece a Coreia do Norte.

Como no dia em que o People's Daily (jornal oficial do Partido Comunista da China) apresentou o nome de Xi em mais de uma dúzia de manchetes em sua primeira página. Ou qualquer um dos dias em que entrei em uma livraria e não vi nada além dos três volumes de A Governança da China de Xi nas prateleiras. Ou em 1.º de outubro do ano passado, quando vi um enorme retrato de Xi passar por Pequim em cima de um carro preto para as celebrações do Dia Nacional da China.

Os Kims da Coreia do Norte podem ter aprendido com o líder soviético Joseph Stalin e o fundador da China comunista Mao Zedong quando construíram seu próprio culto à personalidade, mas Xi alimentou um nível de adoração pessoal nunca visto na China por décadas.

Essa propaganda funciona, pelo menos em alguns casos. Este ano, conversei com jovens em Changsha, a cidade natal de Mao, que parecem admirar genuinamente o Partido Comunista. Conversei com idosos nos hutongs, ou ruelas, de Pequim, que expressaram alívio por terem Xi, e não Donald Trump, como encarregado pela resposta ao novo coronavírus. 

A linha invisível entre o permissível e o potencialmente perigoso está mudando. Os cidadãos chineses correm maior risco porque não existe um processo judicial real e nenhum recurso para eles. A China, como a Coreia do Norte, está cada vez mais fazendo reféns estrangeiros e usando jornalistas como garantias em suas disputas políticas e diplomáticas com os Estados Unidos e seus aliados.

Os canadenses Michael Kovrig e Michael Spavor, que conheço por meio de meu trabalho, estão detidos na China há mais de 650 dias, em retaliação à prisão canadense de uma executiva da Huawei. Isso é mais tempo do que a Coreia do Norte deixou preso Otto Warmbier, o estudante universitário americano.

Está claro que a China agora pensa que o custo de ter correspondentes estrangeiros – pessoas que fazem reportagens incômodas sobre abusos de direitos humanos – supera o benefício de ter quem escreva a respeito do país ser um ótimo destino para investimentos.

Deixei a China em setembro com o coração aflito. Antes de sair, um velho conhecido me contou sobre uma anedota que circulava pela China nesses dias: “Costumávamos pensar que a Coreia do Norte era nosso passado – agora percebemos que é nosso futuro”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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