AFP PHOTO/CRIS BOURONCLE
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Keiko Fujimori revê tática para superar rejeição em 2º turno no Peru

Filha de ex-presidente disputará presidência peruana com Pedro Paulo Kuczynski e pretende explorar apoio dado por adversário a ela em eleição passada; economista deve pedir a eleitores que não deixem tanto poder nas mãos de um só grupo político

Rodrigo Cavalheiro ENVIADO ESPECIAL / LIMA, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2016 | 05h00

LIMA - A candidata Keiko Fujimori deve disputar a presidência do Peru em um segundo turno contra o rival que menos desejava, o economista liberal Pedro Pablo Kuczynski, em 5 de junho. Apuração oficial na manhã desta terça-feira, 12, com base em 95,3% dos votos, mostrava a filha do ex-ditador Alberto Fujimori com 39,7%. O ex­-ministro de Economia e de Energia tinha 21% e a líder de esquerda Verónika Mendoza, 18,7%. A Justiça eleitoral teria que avaliar a impugnação de 3,6% dos votos e ainda faltavam ser processados 4,6%.

Com todas as projeções colocando-os como adversários, Keiko e Kuczynski começaram a adaptar suas estratégias para reduzir seus pontos vulneráveis. O maior adversário de Keiko é a rejeição de 45%, segundo o instituto Ipsos, atrelada a sua defesa do legado do pai. Ele assumiu em 1990, fechou o Congresso em 1992, reelegeu-se em 1995 com 64% dos votos e terminou o mandato em 2000. Está preso por violação dos direitos humanos. Com câncer e réu em ações por corrupção, o ex-presidente pede um indulto. Keiko comprometeu-se por escrito a não concedê-lo, mas é pressionada a admitir crimes no governo do qual foi primeira-dama na adolescência. Ela reconhece “erros”.

Paradoxalmente, o bom desempenho de seu partido na renovação dos 130 parlamentares tornou-se um entrave inesperado. “O peruano médio não aceita que aquele que consegue maioria absoluta no Congresso domine o Executivo. Isso foi o que ocorreu justamente com Fujimori pai em 1995. Kuczynski já prepara peças de publicidade cujo mote é ‘não dê tanto poder a um Fujimori’”, disse ao Estado o analista político e consultor Carlos Tapia. 

A seu favor, Keiko tem a disparidade dos programas de seus rivais. Em 2011, quando ela perdeu para Ollanta Humala no segundo turno, o antifujimorismo era mais homogêneo. 

Até 5 de junho, é provável que Keiko também explore a foto dela em comício com um antigo aliado contra Humala, o próprio Kuczynski. Economista de viés liberal, ele via no atual presidente um risco de ingresso no bloco bolivariano que esteve longe de se confirmar. Humala aproximou-se do capital internacional, algo que não deve mudar, seja qual for seu sucessor.

Aos 40 anos, Keiko passou os últimos cinco anos em campanha visitando lugarejos em que seu provável adversário é um desconhecido. Kuczynski, de 77 anos, concentra sua votação nas maiores cidades. Nas projeções de segundo turno antes da votação, era o único capaz de vencer Keiko. “Ele teria de fazer um gesto para o interior, principalmente o sul, dominado por Verónika. E insistir em se apresentar como democrático”, sugere o analista político Eduardo Dargent, da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

Ministro da Economia de Alejandro Toledo (2001-2006) e de Energia de Fernando Belaúnde (1980-1985), Kuczynski é conhecido por sua experiência e por frases incompatíveis com ela. Sabendo que precisaria dos votos de Verónika para bater Keiko, chamou esquerdista de “terruca”, gíria para terrorista.

“Como ele ganharia esses 20% depois de ofendê-la? Kuczynski precisa dos votos das áreas rurais, mas a população andina lembra que se referiu a eles como atrasados por falta de oxigênio no cérebro”, lembra a analista Adriana Urrutia, referindo-se a um deslize de 2006. “Em um país em que o voto é segmentado por regiões e etnias, ele deveria ser mais cuidadoso, embora tenha a vantagem de que metade da população não quer votar em Keiko”, avalia Adriana, que ressalta as diferenças entre o fujimorismo representado por Keiko e o grupo político de Kuczynski. 

Ambos são de linha conservadora em termos morais, mas têm visões diferentes sobre o tamanho do Estado. Fujimori fez reformas consideradas liberais no início de seu mandato, mas é lembrado pelo gasto público em educação e obras, considerado assistencialismo por seus detratores e investimento social por seus defensores. Kuczynski defende uma diminuição do papel do Estado em áreas não essenciais e já antecipou que pedirá a libertação de presos políticos na Venezuela e em Cuba. Sua candidatura é defendida pelo Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, para quem uma vitória de Keiko seria "desastrosa".

Um ponto sobre o qual provavelmente Kuczynski teria de ceder é o tratamento às empresas de exploração de minério e gás. Verónika exigia a revisão dos contratos do setor, enquanto o economista prega um controle mínimo. “É muito provável que ele precise assinar um compromisso formal flexibilizando sua posição”, prevê o consultor político Arturo Maldonado. 

Congresso. O partido fujimorista Força Popular deve ocupar entre 65 e 68 cadeiras no próximo Congresso do Peru, de um total de 130, segundo projeções de institutos de pesquisa feitas sobre as atas de votação. 

O mais votado foi Kenji Fujimori, irmão mais novo de Keiko. Ele é cotado para presidir a Casa, mas o mais provável é que um fujimorista mais moderado exerça o cargo - é necessário consenso entre as bancadas. A votação dá a Kenji o direito de tomar o juramento do próximo presidente, uma imagem de forte peso político caso Keiko vença. Em segundo lugar, ficaram os esquerdistas da Frente Ampla e o grupo de centro-direita Peruanos pelo Kambio, com 20 deputados cada.

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