Kennedy: morte encerra 47 anos de vitórias e polêmicas

A morte do senador Edward M. Kennedy, aos 77 anos, por um câncer no cérebro, no fim da noite de ontem (horário local), interrompeu uma legendária carreira política de quase cinco décadas nos Estados Unidos. Representando o Estado de Massachusetts desde 1962, Kennedy batalhou por avanços em causas liberais, apesar das tragédias pessoais e controvérsias nas quais esteve envolvido. Os discursos apaixonados do membro do Partido Democrata resultaram em seguidores e o marcaram como um dos melhores oradores do Senado norte-americano.

AE-AP, Agencia Estado

26 de agosto de 2009 | 12h29

Uma importante força na aprovação de leis marcantes relativas aos direitos civis, ao sistema de saúde, à educação e ao combate à pobreza, Kennedy era conhecido como excelente negociador, capaz de trabalhar com habilidade por todo o espectro político a fim de aprovar os projetos em que acreditava. Entre 1967 e 1971, ocupou o posto de auxiliar da maioria no Senado, encarregando-se de garantir o quórum da situação e negociar com os colegas. Em seguida, integrou uma série de poderosos comitês da Casa.

Como membro de uma das famílias mais admiradas e monitoradas dos EUA, Ted Kennedy recebeu tanto a simpatia do público quando o irmão, o presidente John F. Kennedy, foi assassinado em 1963, quanto críticas após bater o carro em Chappaquiddick, Massachusetts, em um acidente que resultou na morte da passageira de seu veículo. Ele concorreu à presidência em 1980, mas perdeu as primárias democratas para Jimmy Carter.

Nas mais de quatro décadas em que ocupou um assento no Senado, Kennedy ajudou a reduzir a idade mínima para o voto de 21 anos para 18 anos, estabeleceu o programa "Meals on Wheels", que entrega refeições para pessoas em dificuldades, e lutou por financiamentos estudantis mais vantajosos e pelo aumento do salário mínimo.

"Há uma lista enorme de coisas que não estariam lá se não fosse por ele", notou Adam Clymer, ex-chefe de sucursal em Washington do jornal "The New York Times", autor de uma biografia sobre Ted Kennedy. "Eu defendo que ele é o maior senador desde Henry Clay", apontou, referindo-se a um senador atuante na primeira metade do século 19, conhecido como "O Grande Pacificador".

Esporte de contato

Nascido em Boston, em 22 de fevereiro de 1932, Ted Kennedy foi o mais jovem de nove crianças. Criado em Bronxville, Nova York, frequentou a Universidade Harvard, onde jogou no time de futebol americano e chegou a ser suspenso por colar no exame de espanhol. Serviu no Exército por dois anos, entre 1951 e 1953, antes de voltar a Harvard, onde se graduou em 1956. Mais tarde, Kennedy obteve o diploma de Direito pela Universidade da Virginia, em 1959. Recebeu inclusive uma proposta para integrar o time profissional Green Bay Packers após a faculdade, mas optou por outra vida, afirmando que planejava "ir para outro esporte de contato: a política".

Ao completar 30 anos, a idade mínima para um senador nos EUA, Kennedy assumiu a vaga deixada dois anos antes por seu irmão, John F. Kennedy, quando este se tornou presidente. Da década de 1960 em diante, lutou por algumas causas caras aos irmãos e por outras que se tornaram suas marcas: a melhoria no sistema de saúde, na questão dos direitos civis, educação e melhorias para os norte-americanos de baixa renda.

Kennedy ajudou a aprovar leis voltadas para os deficientes, a melhoria na nutrição de mulheres e crianças e lutou por igualdade de oportunidades para ambos os sexos. "Não houve ninguém mais compromissado ou valioso para a agenda do comitê de direitos civis que Ted Kennedy", resumiu Hilary Shelton, diretora do escritório de Washington da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas Negras.

''Leão Liberal''

Os avanços renderam ao político o apelido de "Leão Liberal". Os sucessos de Kennedy estavam geralmente relacionados à competência dele em trabalhar cooperativamente com seus colegas conservadores. Em 2001, Kennedy teve papel crucial na aprovação da lei chamada "No Child Left Behind Act", durante o governo de George W. Bush. A importante lei para o setor de educação estabelece testes para se comprovar o desempenho dos alunos, e foi uma das que rapidamente provocou controvérsias entre professores e sindicatos.

"Este foi um compromisso estabelecido entre um Congresso dominado pelos democratas e um presidente republicano", lembrou Paul Peterson, professor de Educação da Universidade Harvard. "Alguém tinha que estabelecer esse compromisso, e o senador Kennedy teve um papel importante nisso."

Pessoa Pública

A vida pessoal de Ted Kennedy nunca esteve distante dos holofotes, particularmente após os assassinatos de seus irmãos John F. Kennedy, em 1963, e Robert, um ex-procurador-geral e senador, em 1968. Nesse intervalo, Ted Kennedy teve uma fratura na coluna, durante um acidente de avião que matou o piloto e um de seus assessores. No mais complexo acidente de sua carreira, conduzia um carro que caiu de uma ponte em Chappaquiddick, em julho de 1969. O acidente matou a passageira, Mary Jo Kopechne, e também todas as possibilidades de o político concorrer à presidência, segundo analistas.

Kennedy também foi duramente criticado por seu silêncio incomum durante as audiências de confirmação para a Suprema Corte do juiz Clarence Thomas, anteriormente acusado de abuso sexual pela professora de Direito Anita Hill, em 1991. Mais cedo naquele ano, Kennedy havia ido a um bar em Palm Beach com seu filho e um primo, este posteriormente inocentado em um processo por estupro. Kennedy teve que testemunhar no caso e isso provavelmente o colocou em uma saia-justa para levantar o tema durante as audiências.

Ted Kennedy primeiro casou com Joan Bennett, em 1958. Com ela, teve três crianças, antes de se divorciar em 1981. Mais tarde, ele se uniu com a advogada Vicki Reggie, em 1992. Ao longo de seus triunfos políticos e tragédias pessoais, os discursos de Kennedy durante convenções, campanhas e no Senado definiram sua visão sobre liberalismo e inspiraram muitos seguidores. Em 1968, Kennedy se encarregou do discurso em homenagem a Robert, após a morte do irmão.

Hoje, entre os que lamentaram o falecimento estavam os ex-presidentes Bill Clinton e George W. Bush, além do atual, Barack Obama. O líder da maioria no Senado, Harry Reid, classificou Kennedy como "o patriarca" do partido. "O rugir do Leão Liberal pode ter se calado, mas seu sonho nunca morrerá." Com informações da Dow Jones.

 

Texto corrigido às 13h23 do dia 31/08.

 

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