Kerry alerta Pyongyang sobre míssil

Para chanceler dos EUA, teste previsto pela Coreia do Norte para os próximos dias seria um 'grande erro' e isolaria mais o regime

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2013 | 02h01

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, acenou ontem com a possibilidade de retomada do diálogo com a Coreia do Norte, mas ressaltou que considera "inaceitável" a pretensão do país de ser reconhecido como uma potência nuclear.

Segundo ele, o regime de Kim Jong-un cometerá "um grande erro" se realizar o teste com míssil balístico esperado desde meados desta semana. "Isso vai isolar ainda mais o país e isolar ainda mais sua população que francamente está desesperada por comida, não por lançamento de mísseis", declarou Kerry em Seul, primeira parada de sua visita à Ásia.

O americano estará hoje em Pequim, onde vai pressionar as autoridades do país a adotarem uma posição mais dura para conter as ambições nucleares da Coreia do Norte. "A China tem uma enorme capacidade de fazer diferença aqui", disse Kerry, referindo-se ao país que é o principal aliado e maior parceiro comercial do regime de Kim Jong-un.

Depois de mais de um mês de exibição de poderio militar por parte de Washington e de uma sucessão de ameaças bélicas de Pyongyang, o secretário de Estado adotou um tom contemporizador. "Nós baixamos nossa retórica de maneira significativa e estamos tentando encontrar um caminho para a razoabilidade prevalecer", afirmou Kerry em Seul.

Segundo ele, seu governo estaria disposto a dialogar com Pyongyang, diretamente ou por meio das "seis partes", que incluem China, Coreia do Sul, Rússia e Japão. Mas para isso, os norte-coreanos deverão demonstrar intenção de desmontar seu arsenal atômico.

Pyongyang quer um diálogo bilateral com os EUA, seu adversário na Guerra da Coreia (1950-1953), com o qual continua tecnicamente em conflito. A guerra não terminou em um acordo de paz, mas em um armistício, que a Coreia do Norte declarou nulo no mês passado.

Anteontem, o governo de Seul também indicou disposição de negociar com o vizinho do Norte, que na semana passada anunciou a suspensão das operações do complexo industrial Kaesong, o único símbolo remanescente de cooperação entre os dois lados da península.

Empresas sul-coreanas investiram US$ 800 milhões na construção de 123 fábricas, que empregam 53 mil norte-coreanos. Desde terça-feira, nenhum deles comparece ao trabalho, por determinação de Pyongyang.

A presidente sul-coreana, Park Geun-hye, disse a integrantes de seu partido que deve haver um encontro entre os dois lados da península para "escutar o que a Coreia do Norte pensa".

O grande obstáculo à negociação é a determinação de Kim Jong-un de ter armas nucleares. No mês passado, o regime norte-coreano anunciou a reabilitação do reator e da planta de resfriamento de urânio do complexo atômico de Yongbyon, desativado em 2007 dentro de negociações de desarmamento no grupo das seis partes.

A propaganda oficial tem apresentado o país como detentor de bombas nucleares operacionais, que poderiam ser usadas a qualquer momento para parar uma agressão externa. Os dirigentes de Pyongyang estão convencidos de que os EUA querem uma mudança de regime na Coreia do Norte e consideram as armas nucleares como uma garantira contra a eventual invasão do país.

Enquanto Kerry estava em Seul, a Coreia do Norte lançou mais uma de suas estridentes ameaças e disse que Tóquio será "consumida em chamas nucleares", caso os japoneses derrubem o míssil que o país poderá lançar a qualquer momento.

O secretário de Estado norte-americano termina seu tour pela Ásia amanhã em Tóquio, onde vai reafirmar o compromisso de seu governo com a defesa do país contra eventuais agressões externas.

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