Kerry associa economia a política externa

Durante audiência, novo secretário de Estado diz que EUA devem colocar em ordem a entidade fiscal

MICHAEL R., GORDON, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2013 | 02h08

Análise

John Kerry disse em sua audiência de confirmação para o posto de secretário de Estado, há uma semana, que a maior prioridade dos Estados Unidos deveria ser colocar o ente fiscal em ordem.

"Política externa é política econômica", disse ele. "É urgente mostrarmos às pessoas do restante do mundo que podemos resolver nossos problemas de maneira efetiva e em tempo hábil." Um dia depois de a secretária de Estado Hillary Clinton ter debatido com membros republicanos do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Kerry teve uma recepção amistosa do órgão que ele chefiou nos últimos quatro anos.

O senador John McCain, que como Kerry é um veterano do Vietnã e foi extremamente crítico da condução que o governo Barack Obama deu ao ataque de setembro em Benghazi e de sua política sobre a Síria, endossou Kerry antes de ele começar a testemunhar.

Numa audiência de quase quatro horas, Kerry mostrou sua familiaridade com um amplo leque de questões, mas não apresentou nenhuma ideia nova sobre como avançar nos incômodos problemas de política externa que herdou.

Diplomacia. Sobre o Irã, Kerry disse que estava comprometido com a busca de uma solução diplomática para o programa nuclear iraniano, mas indicou a opção de usar força militar caso não se possa chegar a uma solução negociada. "Nossa política não é de contenção, é de prevenção, e o tempo está correndo."

Sobre a Síria, Kerry defendeu seu esforço para aproximar o presidente sírio, Bashar Assad, durante os primeiros meses do governo Obama, afirmando que a população crescente da Síria lhe deu uma razão para buscar melhorar os laços com os EUA.

"Ele queria tentar encontrar uma maneira de estender a mão para o Ocidente e ver se havia algum tipo de acomodação", disse Kerry sobre Assad. "A história nos atropelou." A opinião de Kerry foi que Assad não sobreviveria como líder da Síria por muito mais tempo.

Isso não satisfez McCain, que notou que o número de refugiados estava crescendo e era urgente que os EUA fornecessem armas aos rebeldes.

"Compreendo perfeitamente seu ponto de vista sobre essa questão", respondeu Kerry, acrescentando que o melhor desfecho seria encontrar "um caminho que mudasse a equação e o cálculo de Assad".

Enumerando uma longa lista de fatores que tornariam esse desfecho difícil de alcançar, ele disse que queria um debate mais amplo com o Congresso sobre as opções políticas. "Vamos ter de unir nossa cabeças, independentemente de partidos, e imaginar como montar uma equação que seja solucionável", disse Kerry. Sobre controle de armas, o então senador deixou claro que considera a proposta de eliminar todas as armas nucleares uma "meta" que poderá levar séculos para se alcançar e os EUA não tinham outra escolha senão se apoiar na dissuasão nuclear.

Retrocesso. Sobre a Rússia, Kerry reconheceu que as relações haviam "retrocedido um pouco nos últimos dois anos", mas disse que tentaria fazê-las progredir. Sobre o Paquistão, Kerry disse que havia conversado com líderes paquistaneses sobre o médico paquistanês que fora preso por ajudar nos esforços da CIA para localizar Osama bin Laden. "Isso incomoda todo americano", disse Kerry, que se declarou contrário, mesmo assim, a cortar a ajuda àquele país. "Precisamos aumentar nosso relacionamento com os paquistaneses, não reduzi-lo", disse ele.

Kerry foi o primeiro membro do comitê a ascender diretamente ao cargo de secretário de Estado desde que John Sherman o ocupou no início de 1897 no governo do presidente William McKinley.

Para evitar a percepção de um conflito de interesses, Kerry não presidiu a audiência de quarta-feira em que Hillary Clinton testemunhou sobre Benghazi, nem assistiu à sessão. Hillary retornou no dia seguinte ao comitê para apresentar seu sucessor designado.

"John é a escolha certa", disse ela. "Ele tem sido um parceiro valioso deste governo e meu pessoalmente." Na sequência dos procedimentos, o senador Marco Rubio, o republicano da Flórida que estaria acalentando ambições presidenciais, defendeu um papel americano forte em assuntos mundiais e reclamou que a política externa de Obama não era clara.

Mas McCain, que lembrou o papel de Kerry no encorajamento da normalização das relações com o Vietnã, elogiou calorosamente o indicado. "O senador Kerry e eu passamos algum tempo, sob as ordens da Marinha, em certo país do Sudeste Asiático", observou McCain.

Mas o episódio que mais pareceu captar o estado de espírito reinante ocorreu quando o senador Robert Menendez, o democrata de New Jersey que presidiu a audiência, referiu-se erroneamente a Kerry como "senhor secretário".

Nesse ponto, Kerry levantou-se de brincadeira como se estivesse se preparando para sair. "Achei mesmo que isso seria rápido", disse ele, antes de se sentar e voltar a responder às perguntas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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