Mike Theiler/Reuters
Mike Theiler/Reuters

Kerry defende acordo nuclear com o Irã para um Congresso cético

Congresso americano, que deve votar em setembro o acordo entre o Irã e as potências do grupo P5+1, teve hoje sua primeira audiência pública sobre o pacto

O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2015 | 19h13

WASHINGTON - O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, defendeu veementemente nesta quinta-feira, 23, o acordo nuclear com o Irã para um cético grupo de legisladores que o acusaram de ter se deixado levar pela bajulação dos iranianos, e advertiu que é impossível conseguir um acordo melhor do que o fechado em Viena.

O Congresso americano, que deve votar no próximo mês de setembro o acordo entre o Irã e as potências do grupo P5+1, teve hoje sua primeira audiência pública sobre o pacto, com a presença de Kerry e dos secretários do Tesouro, Jack Lew, e de Energia, Ernest Moniz.

"A alternativa ao acordo que alcançamos não é o que vi que alguns anúncios na televisão sugeriram. Não é um 'acordo melhor', uma espécie de pacto do mundo dos unicórnios que inclua a capitulação completa do Irã", disse Kerry na audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado.

"Essa é uma fantasia, ingenuamente simples", acrescentou Kerry. "A decisão que enfrentamos é entre um acordo que garantirá que o programa nuclear do Irã está limitado, sujeito a um escrutínio rigoroso e é completamente pacífico, ou nenhum acordo em absoluto".

O titular das Relações Exteriores ressaltou que não podem forçar o Irã a "desmantelar todo seu programa nuclear" e que a única outra opção para detê-lo era "a ação militar".

O Congresso dos Estados Unidos, controlado pela oposição republicana nas duas casas, tem 60 dias para revisar o acordo alcançado na semana passada em Viena entre o Irã e o P5+1 (formado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: EUA, França, Grã-Bretanha, Rússia, China, mais a Alemanha), com a mediação da União Europeia.

A participação dos EUA no acordo só pode ser barrada se uma maioria de dois terços dos legisladores em ambas as câmaras votar nesse sentido, o que derrubaria o veto que o presidente Barack Obama prometeu a qualquer legislação contra o acordo nuclear.

Vários altos funcionários do governo americano já tiveram reuniões a portas fechadas com deputados e senadores dos dois partidos para defender o acordo e obter votos a favor.

"Se o Congresso rejeitar unilateralmente o que acordamos em Viena, o resultado será que os Estados Unidos se afastarão das restrições que alcançamos e darão um grande sinal verde ao Irã para que dobre o ritmo de seu enriquecimento de urânio", alertou Kerry.

O Conselho de Segurança da ONU já respaldou esta semana o acordo nuclear com o Irã e autorizou a suspensão gradual de boa parte das sanções contra o país, por isso a Casa Branca argumenta que, se o Congresso barrar o acordo, os Estados Unidos ficariam isolados em sua política de sanções nucleares a Teerã.

"A razão pela qual as sanções tiveram esse efeito (sobre a economia iraniana) é que não eram só sanções americanas, eram internacionais, e isso requer uma coalizão", argumentou hoje o secretário do Tesouro.

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o republicano Bob Corker, afirmou que os iranianos enganaram Kerry com o acordo, e seu colega de partido, Jim Risch, afirmou que o governo americano se rendeu à bajulação iraniana. "Qualquer um que acreditar que este é um bom acordo está entre as pessoas mais ingênuas da face da terra", criticou Risch.

Kerry respondeu que os negociadores das outras potências do 5+1 "não são tolos", e antigos funcionários de inteligência em Israel saíram em defesa do pacto.

Na audiência, que durou quatro horas e meia, Kerry recebeu duras críticas de vários republicanos e até de um democrata, Bob Menéndez, que se mostrou "muito preocupado com o possível levantamento do embargo de armas ao Irã dentro de cinco anos".

Vários senadores republicanos destacaram a ferrenha oposição do governo de Israel ao acordo e as suspeitas expressadas no passado pelos países sunitas do Golfo Pérsico.

O governo da Arábia Saudita "disse estar preparado para apoiar o acordo se certas coisas passarem, e acredito que essas coisas vão passar", em uma aparente referência a um possível aumento da ajuda militar dos EUA.

"Acreditamos que, além disso, há potencial de alcançar um novo alinhamento na região, o que discutirei em minha reunião com os países do Golfo" no dia 3, acrescentou Kerry.

A oposição republicana no Congresso está irritada também pela revelação de que há dois acordos paralelos entre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o Irã, que a Casa Branca não teria entregado ao Congresso. O porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, assegurou hoje que a Administração está disposta a compartilhar o conteúdo desses acordos com o Congresso, mas em sessões fechadas à imprensa. / EFE

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