Kerry desembarca nesta sexta-feira em Cuba para reabrir embaixada fechada desde 1961

Muitos cubanos esperam que a retomada de relações dê impulso à combalida economia local

Cláudia Trevisan, enviada especial a Havana , O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2015 | 02h02

O secretário de Estado americano, John Kerry, reinaugura nesta sexta-feira, numa cerimônia em Havana, a Embaixada dos EUA em Cuba, fechada desde 1961. A solenidade é resultado do histórico acordo anunciado em 17 de dezembro e firmado entre o governo de Barack Obama e Raúl Castro.

Quando desembarcar, pela manhã, Kerry - primeiro secretário de Estado dos EUA a visitar a ilha desde 1945 - levará a esperança de vida melhor para 11 milhões de cubanos. Com salários que quase nunca chegam ao fim do mês, muitos cubanos esperam que a retomada de relações dê impulso à combalida economia local, marcada por ineficiências e distorções causadas pelo controle estatal e um sistema de câmbio duplo que cria mundos paralelos entre os que têm acesso à moeda estrangeira e a maioria da população.

"É importante que haja mudanças para as pessoas comuns, porque está muito difícil", disse ao Estado um cubano que se identificou apenas como Pedro. Quando amigos que acompanhavam a conversa com a reportagem perguntaram se ele tinha medo de se identificar, respondeu que sim.

Aos 65 anos, Pedro recebe 480 pesos por mês, o equivalente a US$ 20. Metade vem de uma aposentadoria e a outra, do trabalho como segurança. "O custo de vida é muito alto", reclama. Sentados ao redor de Pedro em uma esquina do bairro onde vivem, cinco vizinhos concordam e começam a citar o preço dos alimentos.

Todos podem comprar alguns produtos subsidiados em mercados do Estado, mas os limites estabelecidos para cada pessoa impedem que sejam supridas as necessidades de um mês. A "cesta básica" inclui arroz, feijão, açúcar, sal, óleo, ovos, frango e peixe, mas em quantidades que não cobrem quatro semanas. O número de ovos, por exemplo, é limitado a cinco e só é possível comprar meio quilo de frango.

O conjunto dos produtos custa 15 pesos (US$ 0,60), segundo Juan, que também não deu o sobrenome, mas concordou em ser fotografado. O que excede as quantidades - anotadas em uma caderneta pessoal - deve ser comprado a "preços livres". Meio quilo de arroz custa 8 pesos (US$ 0,20), valor nada desprezível quando comparado aos cerca de 400 pesos (US$ 16) que Juan recebe ao mês da aposentadoria e do negócio de funilaria que mantém no quintal de sua casa. "Meio quilo de carne custa 45 pesos. Se eu compro, o que me sobra?", perguntou.

Ambos vivem em um bairro pobre de Havana. Apesar de ruim, a situação atual não se compara à vivida depois do fim da União Soviética, em 1991, quando houve fome e escassez aguda de produtos, observaram. "A economia cubana era sustentada pelo campo socialista", afirmou Pedro, ressaltando que o país vivia uma prosperidade artificial.

A seu lado, José disse que as coisas começaram a melhorar com Raúl Castro, que assumiu a presidência de Cuba em 2008 e ampliou, ainda que de maneira tímida, o espaço da iniciativa econômica individual.

Com o custo de vida em alta e minguados salários estatais, um número crescente aspira ser "cuentapropista", o nome oficial para os que trabalham por conta própria.

Pedro e Juan não têm celular. Para eles, só os que possuem negócios individuais têm dinheiro suficiente para acessar o serviço.

A expectativa dos amigos é que o restabelecimento de relações com os EUA leve ao fim do embargo imposto pelos americanos há mais de cinco décadas.

 

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