Kerry está fora da realidade

Uma palavra descreve a política dos EUA para Rússia, Síria, Israel e palestinos: delírio

JACKSON, DIEHL, WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2014 | 09h11

Durante uma viagem ao Oriente Médio, em novembro, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse que a região caminhava para fantásticas conquistas graças à diplomacia americana. No Egito, afirmou: "O projeto de democracia, pelo que eu sei, está sendo posto em prática". Na Síria, disse que uma conferência de paz substituiria o regime de Assad por um governo de transição. E o conflito palestino-israelense estava prestes a alcançar um acordo final no mês de abril.

Alguns apressaram-se em elogiar Kerry por suas ousadas ambições, afirmando que ele estava dotando a inerte política externa do governo Obama de capacidade de visão e de energia. Outros, eu entre eles, acharam que ele estava delirando.

Quatro meses se passaram e, infelizmente para Kerry e para os interesses dos EUA, o veredicto é que ele estava de fato delirando. O Egito é dominado por um general autoritário. As conversações de paz com a Síria implodiram logo depois de começar. Agora, Kerry tenta impedir o colapso do diálogo de paz, que pende por um fio.

Podemos afirmar que nada disso se dá por culpa de Kerry. O general Abdel Fatah al-Sissi sequestrou a prometida transição política do Egito. Binyamin Netanyahu não parou com as edificações na Cisjordânia. E Mahmoud Abbas recusou-se a reconhecer Israel como um Estado judeu. Tudo isso é verdade. No entanto, Kerry apoiou os vilões o tempo todo.

A começar pelo Egito, onde o Departamento de Estado sustentou a ficção segundo a qual o golpe contra o governo eleito de Mohamed Morsi pretendia "restaurar a democracia". No dia 12 do mês passado, Kerry: "Estou extremamente esperançoso de que, dentro de pouco tempo, poderemos avançar". Doze dias depois, um tribunal egípcio sentenciou à morte 529 membros da Irmandade Muçulmana. Quarenta e oito horas mais tarde, Sissi apareceu na TV para anunciar sua candidatura à presidência.

Kerry não se mostrou menos crédulo a respeito de Vladimir Putin. Tendo assumido o cargo em maio com objetivo de intensificar o apoio aos rebeldes sírios para "modificar os cálculos de Assad", Kerry mudou abruptamente o rumo após uma visita ao Kremlin. Rússia e EUA "cooperariam para tentar implementar" uma transição para o regime de Assad. "Nosso entendimento é muito semelhante", disse.

Não era. Durante os nove meses seguintes, Putin, que abomina a mudança de regime apoiada pelos EUA, enviou armas a Damasco. Quando a conferência de paz em Genebra finalmente começou, a Rússia - num gesto que não surpreendeu ninguém, com exceção de Kerry - apoiou a afirmação de Assad de que as negociações deveriam se limitar a combater o "terrorismo" e não um governo de transição.

Chegamos assim ao lodaçal que são as conversações de paz no Oriente Médio, que Kerry abraçou como uma causa pessoal, embora o governo Obama já tivesse falhado na intermediação de um acordo entre Netanyahu e Abbas.

Kerry gastou uma enorme quantidade de tempo com Israel e os territórios palestinos, convencido de que conseguiria fazer com que chegassem a um acordo. Como era de se prever, isso não aconteceu. Os líderes não mudaram um milímetro em relação às posições que defendiam e Abbas rejeitou os termos que Kerry tentava incluir na proposta.

O secretário respondeu à primeira crítica que fiz a ele numa entrevista ao jornal Politico: "Eu perguntaria: qual é a alternativa?" Bom, a alternativa é tratar o Oriente Médio por aquilo que realmente é.

Reconhecer que os generais do Egito estão instalando novamente uma ditadura e, portanto, a ajuda americana não poderá ser reiniciada. Rever a possibilidade de ressuscitar e defender os verdadeiros democratas do Egito. Admitir que o regime de Assad não cairá, a não ser que seja derrotado no campo de batalha e adotar uma estratégia que permita derrotá-lo. Admitir que uma paz abrangente palestino-israelense é impossível agora e empreender, em condições mais modestas, um trabalho de preparação para um futuro Estado palestino.

Em suma, deixar de lado os delírios. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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