Keynes, economista solar e otimista

Para alguns, ele é o herói que resgatou o Ocidente da Grande Depressão, para outros, o culpado pelo caos atual; o fato é que ele era um otimista

É ESCRITORA, SILVYA, NASAR, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITORA, SILVYA, NASAR, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2011 | 03h05

Embora tenha morrido há 65 anos, John Maynard Keynes continua sendo uma presença extraordinária. Basta abrir um jornal, clicar num blog ou ligar a TV, e imediatamente ele está em toda parte. O oráculo britânico da economia é mais procurado no Google do que Leonardo Di Caprio. Dizem que Rick Perry, o governador do Texas, ficou tão irritado com esse personagem que ainda rouba a cena que interrompeu um recente debate republicano para disparar aos rivais a notícia de que Keynes, afinal, estava morto.

Para alguns, Keynes é o herói que resgatou o Ocidente da Grande Depressão; para outros, o vilão que deve ser culpado pelo caos atual. Para mim, não é nem uma coisa nem outra, ele é o Winston Churchill da economia, que irradiava otimismo quando as coisas pareciam mais tenebrosas, nunca tão animado como numa emergência nacional ou global.

Emergência é o que estamos vivendo agora. O desemprego está parado em torno de 9% há mais de dois anos. Os negócios não andam. As famílias têm menos dinheiro para gastar. O tumulto toma conta dos mercados. Todos nossos antigos temores voltaram a nos assombrar: o sonho americano morreu; a classe média está desaparecendo; nossos filhos não terão uma vida tão boa quanto a que nós tivemos. Não importa que esses temores tenham se revelado infundados no passado. Quando acordamos apavorados no meio da noite, é quase impossível para nós imaginar que logo o dia clareará.

Keynes conseguia isso. Ele tinha uma surpreendente capacidade de enxergar dias melhores além do presente sombrio - principalmente considerando que foi ele quem afirmou: "No longo prazo, estaremos todos mortos".

O otimismo solar de Keynes foi mais impressionante durante um dos capítulos mais sombrios da moderna história econômica. Se pensarmos na recessão de 2007-2009 como um furacão de categoria 1, a Grande Depressão poderia ser classificada como de categoria 5. A renda per capita era um quinto da atual, corrigida pela inflação. O desemprego era quase o triplo do atual. Mais de um terço da população estava na miséria. Os benefícios da seguridade social praticamente não existiam.

Os pregadores falavam no apocalipse, e os sábios contemplavam "a possibilidade de que o sistema ocidental de sociedade entrasse em colapso e parasse de funcionar". Mas Keynes tranquilizava seus compatriotas com sua voz sedutora, vibrante, uma de suas características mais sensuais, afirmando que o que estava acontecendo "não é um sonho. É um pesadelo, e desaparecerá pela manhã". Certamente, Keynes não viu o furacão assim como seus colegas não previram as crises de 1893 ou de 1907 ou as dos anos 90 ou de 2008.

Nunca ninguém esquecerá do extemporâneo pronunciamento de Irving Fisher, antes do crack de 1929, de que "as ações atingiram um patamar permanentemente elevado". Keynes foi apanhado de surpresa e obrigado a colocar à venda os dois quadros impressionistas que mais amava. Mas não perdeu tempo lamentando os fracassos passados quando o pânico estava no ar. Ao contrário, começou rapidamente a tranquilizar o público britânico afirmando que "estamos sofrendo neste momento um grave ataque de pessimismo econômico". Com a maior segurança, previu que quando seus sobrinhos netos chegassem à idade adulta, a humanidade teria resolvido o "problema econômico". Pelo menos no Ocidente, os requisitos materiais para uma vida confortável estariam disponíveis para todos.

Ele não excluiu os perigos de um desemprego de 25%, nem defendeu que os governos adotassem o tratamento natural e ficassem esperando os resultados. Mas discordou dos que pediam medidas draconianas. Insistiu que as economias ocidentais sofriam de uma falha mecânica para a qual existia um conserto relativamente fácil. Os governos tinham o poder de quebrar o círculo vicioso que a inflação estava criando para produtores rurais e empresários. O que as autoridades monetárias deveriam fazer era reduzir as taxas de juros imprimindo mais dinheiro até que as empresas pudessem elevar os preços e achassem que valia a pena voltar a investir.

Nova teoria. Quando a depressão não respondeu à política monetária, mas se agravou, Keynes voltou à mesa de trabalho. Em 1936 já tinha elaborado uma nova teoria das crises resistentes aos tratamentos comuns do dinheiro fácil e dos juros baixos, que definiu como sua marca registrada - Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.

O que nunca mudou durante a depressão e a 2.ª Guerra foi a atitude positiva de Keynes. Em que tinha base a fé de Keynes no futuro? Na confiança na "atitude mental", o termo com que ele definia o modo de pensar como um economista. Sua grande inovação foi criar uma "economia do todo" que foi útil para compreender e tratar de crises econômicas temporárias, mas perigosas.

Keynes abraçava tanto o conceito do Velho Mundo de que o melhor que um membro das classes trabalhadoras podia fazer era aceitar sua condição na vida, quanto a ordem do Novo Mundo, no qual se aceitava que nações e povos seriam os donos do próprio destino.

Alfred Marshall, o pensador mais responsável pela escolha da carreira de Keynes, também foi o mais responsável pela nova maneira de pensar. Parafraseando o grande economista americano Paul Samuelson: "Antes de Marshall, a economia tratava do que não se podia mudar". A nova economia tratava do que se podia mudar. Como a ciência era triste na época em que Marshall a estudou. Chegando a Londres em 1849, Karl Marx testemunhou o milagre econômico vitoriano e, para citar Gladstone, 20 anos de melhoria da "condição média do trabalhador britânico... sem igual na história de qualquer país e de qualquer época".

Quando publicou O Capital, em 1867, Marx declarou que estava revelando a "lei do movimento" da sociedade. Mas ele nunca se preocupou em visitar uma fábrica. Anualmente, Marshall dedicou meses a percorrer fábricas praticamente em qualquer setor da atividade econômica, ouvindo empresários, líderes sindicais e trabalhadores.

A nova ciência social alegre, da qual Marshall foi o pioneiro, foi uma autêntica revolução do pensamento humano que mudou as vidas de todos os homens. O que diria Keynes se, por exemplo, ele aparecesse amanhã na CNN? Que nós superamos dezenas de desafios tão ruins ou piores, que o aumento gigantesco do padrão de vida desde a época de Jane Austen mostra que tivemos mais acertos que fracassos, e o "aparato mental" - que exige que deixemos os fatos mudarem nossas mentes, que encorajemos nossos críticos e que nos demos conta da existência de um terreno comum - é infinitamente mais útil em um período de crise do que a ideologia ou a crua emoção.

E o que faria Keynes agora? Desconfio que iria às compras. Era o "incorrigível otimista", relata seu biógrafo Robert Skidelsky, que apostou alto na recuperação dos EUA em 1936 e continuou quando voltaram a desmoronar em 1937. Talvez parecesse uma noite profunda, mas Keynes sabia que logo nasceria um novo amanhã. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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