Khamenei estende votação no Irã para evitar abstenção e ampliar legitimidade

'Grande satã'. Líder supremo iraniano convoca cidadãos a votar maciçamente nas eleições de ontem como forma de esvaziar o argumento de Washington de que o processo eleitoral do país persa é uma fraude; primeiros resultados devem ser divulgados hoje

TEERÃ, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2013 | 02h04

Milhões de iranianos foram às urnas ontem escolher o próximo presidente da república islâmica, enquanto o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, incentivava a população a votar, referindo-se à eleição como mais uma batalha contra os EUA. Segundo Khamenei, o comparecimento dos iranianos nas seções de voto desacreditava o argumento de Washington de que as eleições no país são uma fraude.

As urnas fecharam às 23 horas de Teerã (15h30 em Brasília), cinco horas a mais do que havia sido inicialmente previsto. A extensão do horário de funcionamento das seções eleitorais seria uma tentativa de ampliar o comparecimento, mas não foi divulgada informação sobre quantos iranianos votaram. A contagem dos votos foi iniciada logo após o fechamento das urnas.

Cerca de 50 milhões de eleitores iranianos poderiam escolher entre seis candidatos à sucessão de Mahmoud Ahmadinejad. Se nenhum deles tiver mais de 50% dos votos válidos, a disputa irá para o segundo turno.

A eleição de ontem foi a primeira para presidente desde a reeleição de Ahmadinejad, em 2009, quando acusações de fraude levaram milhões de iranianos às ruas na maior onda de protestos do país desde a Revolução Islâmica. Eleitores compareceram ontem em grande número às seções eleitorais, apesar da opção limitada entre os candidatos com maior chance de vencer - um moderado e três conservadores linha-dura.

O líder supremo incentivou os iranianos a participar da votação, condenando as autoridades americanas que criticaram a transparência da eleição. O ministro do Interior iraniano, Mustafá Mohammad Najjar, disse à emissora estatal Press TV que houve um grande comparecimento em todo o país em resposta aos apelos de Khamenei.

"Eles querem se levantar contra o inimigo", disse, apontando para Israel, Estados Unidos e seus aliados, que acusam Teerã de tentar desenvolver armas nucleares.

Analistas iranianos disseram que o alto comparecimento beneficia o único candidato conservador moderado, Hassan Rohani, que recebeu apoio dos dois ex-presidentes reformistas do país, Akbar Hashemi Rafsanjani e Mohammad Khatami. No entanto, vozes no campo opositor - mais propenso a votar em Rohani - convocaram um boicote à votação, cenário que poderia lhe custar um lugar no segundo turno.

Mudança. O pedido de Rohani para reabilitar as relações exteriores do Irã e decretar uma "carta de direitos civis" teria surtido efeito entre muitos iranianos ávidos por mudança. Sem pesquisas confiáveis e independentes no Irã, é difícil avaliar se Khamenei, a Guarda Revolucionária e a milícia islâmica basij terão poder para direcionar o resultado da eleição.

O voto conservador, do outro lado, está disperso entre três candidatos principais: os diplomatas Saeed Jalili e Ali Akbar Velayati, e o prefeito de Teerã e ex-chefe da Guarda Revolucionária, Mohammad Qalibaf.

Um integrante da milícia basij, Hossein, de 27 anos, disse que votaria em Jalili, que ocupou o cargo de negociador-chefe da questão nuclear do Irã, porque ele é o único entre os candidatos a defender a atual posição dura de Teerã nas negociações com as potências globais. Próximo do líder supremo, Jalili é tido como o mais radical entre os favoritos na disputa. "Com certeza votarei nele. É o único em quem posso confiar para respeitar os valores da revolução. O líder supremo confia tanto em Jalili que ele lidera as negociações nucleares do Irã." / REUTERS e AP

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