AFP PHOTO / Ukraine Emergency Ministry press service / handout
AFP PHOTO / Ukraine Emergency Ministry press service / handout

Rússia toma cidade estratégica de Kherson e amplia ataques contra civis em Kiev e Kharkiv

Ataques de artilharia atingiram a segunda maior cidade do país e fizeram soar alertas em pelo menos outros oito municípios; em Kharkiv, grupo de paraquedistas russo desembarcou no começo da madrugada desta quarta-feira

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 04h57
Atualizado 03 de março de 2022 | 01h31

Tropas russas tomaram nesta quarta-feira, 2, a cidade de Kherson - ponto estratégico entre a Crimeia, dominada pelo Kremlin, e o sul da Ucrânia. Em paralelo, os russos aumentaram o cerco a Kiev e devem intensificar a ação militar para tomar a cidade.  Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia, voltou a ser intensamente bombardeado pela artilharia russa nesta quarta-feira, no 7° dia da ofensiva de Moscou contra o território ucraniano.

À noite, já madrugada de quinta-feira na Ucrânia, autoridades locais disseram que um novo bombardeio russo matou seis civis, entre eles duas crianças em Kharkiv. Em Kiev, houve o registro de pelo menos quatro explosões. A agência de refugiados da ONU informou na noite desta quarta-feira, 2, que 1 milhão de pessoas fugiram da Ucrânia desde a invasão da Rússia há menos de uma semana, um êxodo sem precedentes neste século por sua velocidade.

A queda da cidade Kherson, onde três jogadores de futsal brasileiros estão retidos, é importante porque o controle da cidade de 300 mil habitantes possibilita aos russos ter mais forças para tentar controlar os portos de Odessa e Mariupol. 

O prefeito de Kherson, Igor Kolykhaev, e um alto funcionário do governo ucraniano confirmaram que Kherson havia caído. As forças russas cercaram a cidade, disse Kolykhaev, e após dias de intensos combates, as forças ucranianas recuaram em direção à cidade vizinha de Mykolaiv. “Não há exército ucraniano aqui”, disse ele em entrevista. “A cidade está cercada.” Cerca de 10 oficiais russos armados, incluindo o comandante russo, entraram na prefeitura, disse Kolykhaev, e tinham planos de estabelecer um centro administrativo russo lá.

O prefeito de Kherson, Igor Kolykhayev, afirmou ter conversado com os "convidados armados" em um edifício da administração municipal. "Não tínhamos armas e não fomos agressivos. Mostramos que trabalhamos para garantir a cidade e tentamos parar as consequências da invasão", declarou em mensagem no Facebook.

"Encontramos enormes dificuldades com o recolhimento e enterro dos mortos, a entrega de alimentos e medicamentos, o recolhimento de resíduos, a gestão de acidentes, etc", afirmou.

O prefeito anunciou um toque de recolher noturno e restrição ao tráfego de carros, alegando não ter "feito nenhuma promessa" aos russos e "simplesmente lhes pedido que não atirassem nas pessoas". "Até agora tudo está indo bem. A bandeira que voa acima de nós é a ucraniana. E para que isso continue, essas exigências devem ser respeitadas", acrescentou.

Apesar do relato, o gabinete do presidente Volodmir Zelenski, afirmou que combates ainda estão acontecendo nos arredores do porto da cidade. À Associated Press, contudo, o governo disse não poderia comentar sobre a situação enquanto a batalha ainda estava sendo travada.

Mais alvos civis na mira

Um alto funcionário do Pentágono disse que as forças russas em toda a Ucrânia continuam a sofrer problemas logísticos e que a liderança militar da Rússia se tornou muito mais agressiva ao atacar a infraestrutura civil dentro das cidades

Bombardeios russos mataram pelo menos 21 pessoas e feriram mais de 110 apenas em Kharkiv, segunda maior cidade do país, entre terça e quarta-feira, de acordo com o governador regional Oleg Synegubov, sem contar os novos ataques desta noite. Áreas residenciais e o prédio da administração regional foram atingidos por mísseis russos, segundo os ucranianos.

Outro bombardeio com mortes confirmadas atingiu a cidade de Zhytomyr. Quatro pessoas perderam a vida após uma área residencial ser atingida por um míssil de cruzeiro, que aparentemente era direcionado a uma base aérea próxima. De acordo com Anton Gerashchenko, conselheiro do Ministério do Interior, uma das vítimas seria uma criança.

"Putin está em guerra contra as crianças. Na Ucrânia, onde mísseis estão atingindo escolas infantis e orfanatos, e também na Rússia. David, de 7 anos, Sofia, de 9 anos, Matvey, de 11 anos, Gosha e Liza passaram a noite atrás das grades em Moscou por causa de seus posteres 'No to War'. Isso mostra o quão assustador esse homem é", escreveu Dmytro Kuleba, chanceler da Ucrânia, compartilhando fotos das crianças russas.

Relatos da imprensa ucraniana apontam que alertas sobre ataques aéreos foram emitidos durante toda a madrugada em diferentes cidades do país. Em Kiev, Chernihiv, Sumy, Pyryatyn, Myrhorod e Dnipro, os moradores foram aconselhados a buscar abrigo.

O Exército russo também já conquistou o controle do porto de Berdyansk e está realizando uma dura ofensiva contra Mariupol, também no sul do país.

Em Kharkiv, tropas aerotransportadas da Rússia desembarcaram durante a madrugada. "Um grupo de paraquedistas russos desembarcou em Kharkiv", disse o centro operacional das Forças Armadas da Ucrânia em seu canal Telegram durante a madrugada. Segundo o órgão, "os ocupantes atacaram o hospital, o Centro Clínico Médico Militar da Região Norte" e eclodiu uma batalha entre os invasores e os defensores ucranianos.

UE abre as portas para refugiados

A Comissão Europeia anunciou nesta quarta-feira, 2, que concederá autorizações de residência temporárias aos refugiados ucranianos e lhes concederá direitos à educação e ao trabalho nos 27 países da União Europeia. A medida ainda precisa ser aprovada pelos estados-membros -- que já expressaram amplo apoio à medida no fim de semana passado.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que "todos aqueles que fogem das bombas de Putin são bem-vindos na Europa. Forneceremos proteção para aqueles que procuram abrigo e ajudaremos aqueles que procuram um caminho seguro para casa."

Apesar de recente, o confronto vem aumentando o número de vítimas a cada dia. Um balanço do Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos na noite desta quarta-feira apontava que 227 civis morreram desde o início da invasão russa, e 525 civis foram feridos -- 26 deles menores de idade. O número, de acordo com a própria ONU, deve estar subnotificado.

O último relatório dos militares russos sobre o avanço militar aponta que, desde o início da invasão, 1.502 alvos de infraestrutura militar ucraniana foram destruídos; 47 aviões foram obliterados ainda no solo (e 11 no ar); 472 tanques e outros blindados, bem como 62 lançadores de mísseis e 206 peças de artilharia e morteiros ucranianos foram destruídos.

Do lado ucraniano, uma estimativa das forças armadas indica que 5.840 soldados russos foram mortos em combate. 30 aviões e 31 helicópteros teriam sido destruídos, assim como 211 tanques, 355 carros,  862 veículos blindados, 85 peças de artilharia e duas embarcações./REUTERS, EFE, AFP e AP

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