Kiev e a culpa do Ocidente

Líderes e diplomatas ocidentais também têm sangue nas mãos na Ucrânia

Leonid Bershidsky*, Bloomberg/O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 03h23

Na terça-feira, Kiev, uma cidade normalmente calma de 2,8 milhões de habitantes, viu mais mortes em um único dia desde a 2ª Guerra. Pelo menos 25 pessoas perderam a vida, centenas ficaram feridas, muitos perderam olhos e braços, no que poderá ser o início de uma guerra civil na fronteira leste da União Europeia.

É fácil acusar o presidente Viktor Yanukovich, como o fez o chanceler da Suécia, Carl Bildt, num tuíte: "Sejamos claros: a responsabilidade pelas mortes e pela violência é do presidente Yanukovich. Ele tem sangue nas mãos". Como policiais também morreram, é igualmente fácil acusar os manifestantes radicais, como o fez o chanceler russo: "Sangue foi derramado em Kiev e outras cidades ucranianas na noite passada em consequência de atos criminosos de forças de oposição radicais".

Foram os dois lados que combateram nas ruas de Kiev, exibindo um ódio e uma crueldade animalescos numa escala não vista pela atual geração de ucranianos. No entanto, uma terceira parte também é culpada: os líderes e negociadores ocidentais que acompanham o conflito desde o início e perderam diversas oportunidades para evitá-lo.

Os protestos começaram em 21 de novembro, quando o governo ucraniano anunciou que não assinaria um acordo comercial e de associação com a UE. Yanukovich sucumbiu à pressão da Rússia, que deseja que a Ucrânia integre a união alfandegária com Casaquistão e a Bielo-Rússia, e ofereceu um pacote de ajuda de US$ 15 bilhões.

Nesse momento, a UE tinha de oferecer um pacote de ajuda bastante atrativo também e o problema então seria resolvido. Somente um mês depois os burocratas europeus revelaram que não tinham condições de pagar pela adesão da Ucrânia.

Mas, quando decidiram apresentar uma oferta melhor, um pacote de US$ 27 bilhões, com auxílio do FMI, Yanukovich já tinha firmado o acordo com a Rússia e os estudantes que protestaram foram espancados pela polícia de choque em Kiev, o que levou a uma intensificação dos protestos e à construção das primeiras barricadas.

Em seguida, outra oportunidade perdida. Depois dos espancamentos de estudantes, os líderes ocidentais poderiam ter insistido mais para Yanukovich demitir seu governo e punir as autoridades responsáveis. Como ocorreu, o gabinete do então premiê Mykola Azarov, que não era tão apreciado pelo presidente, foi exonerado em janeiro, após tentativas de fazer votar diversas leis intolerantes, o que provocou as três primeiras mortes em Kiev.

Yanukovich ofereceu o posto de premiê para um parlamentar e um dos líderes da oposição, Arseni Yatsenyuk. No entanto, era tarde demais. Yatsenyuk, como outros opositores, sabia que as ruas o veriam como um colaborador covarde se aceitasse.

O presidente demorou para agir, mas isso representa também o fracasso de inúmeros mediadores internacionais que tentaram arrancar um acordo entre ele e a oposição. A escandalosa gravação de uma conversa da subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, com o embaixador Geoffrey Pyatt, em que ela se referiu à UE com palavrões, revelou o quão ineficazes foram esses esforços e como os diplomatas ocidentais não conseguem se unir numa frente comum.

Os mediadores ocidentais tinham pulso forte para agir. A família e os amigos de Yanukovich têm ativos na Europa e em várias jurisdições offshore. O filho de Azarov vive em Viena, onde tem negócios. A revista austríaca Format publicou um fluxograma detalhando os negócios do clã Yanukovich no estrangeiro.

Com certeza, os serviços de inteligência europeus sabem mais. Os negociadores poderiam ameaçar confiscar esses ativos para Yanukovich abrandar sua posição, mas a Europa vacilou e não impôs sanções pessoais.

Na segunda-feira, Yatsenyuk e Vitali Klitschko, outro peso-pesado da oposição, reuniram-se com Angela Merkel pedindo para que ela adotasse o caminho das sanções. "Acho que a UE e a Alemanha possuem recursos e mecanismos para impor sanções", disse Klitschko.

Na época da reunião de Berlim, a ameaça podia ter sido usada para pressionar Yanukovich a convocar eleições antecipadas - provavelmente, a única coisa que poderia acalmar os manifestantes. Merkel, porém, disse a eles que sanções não eram uma boa ideia porque a UE precisava trabalhar de maneira construtiva com ambas as partes do conflito.

Então, chegou terça-feira e pessoas morreram. Agora, os políticos europeus finalmente falam de sanções contra Yanukovich e seus parentes. Novamente, uma medida insuficiente e tardia.

"Para todos os líderes ocidentais que observam alarmados, que estão preocupados e pensando em sanções, que vão para o inferno", escreveu no Facebook Yulia Belinskaya, proprietária de uma empresa que participa dos protestos em Kiev desde novembro.

Agora que armas foram usadas por ambos os lados, será difícil encontrar uma solução política. O ódio nas ruas é forte demais.

O presidente ucraniano não parece inclinado a ceder mais. "Novamente, apelo aos líderes da oposição que dizem defender uma solução pacífica para se afastarem imediatamente das forças radicais que provocam o derramamento de sangue", afirmou Yanukovich, em comunicado. "Se não quiserem fazer isso, devem admitir que apoiam os extremistas e, então, a conversa será diferente."

Mais vidas provavelmente serão perdidas em Kiev e por toda uma nação dividida, com suas regiões ocidentais nacionalistas e as áreas do sudeste favorecendo a Rússia. Em várias fases do conflito, uma diplomacia ocidental hábil poderia ter impedido a escalada da violência.

No entanto, líderes e diplomatas ocidentais sempre se mantiveram um passo atrás dos acontecimentos. Se uma guerra civil eclodir, eles também terão sangue em suas mãos.

*Leonid Bershidsky é colunista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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