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Kiev em chamas

Sob os olhos do mundo inteiro, no centro da capital ucraniana, a praça Euromaidan ficou em chamas. Os batalhões em negro do presidente Viktor Yanukovich espancavam e matavam os revoltados, os indignados, aqueles que querem que seu país se volte para a União Europeia e não para a Rússia e que respondiam aos fuzis dos policiais com um grande fogo de artifício de garrafas de cerveja transformadas em coquetéis Molotov.

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

20 de fevereiro de 2014 | 23h26

E a Europa? A Europa coça a cabeça. Enviou a Kiev os ministros do Exterior da França, Alemanha e Polônia. E não é tudo. Vários dirigentes europeus declararam que a sangrenta repressão pelas forças policiais do governo ucraniano é "inaceitável". Verdade? Inaceitável, eu garanto.

Portanto, uma perplexidade do lado da União Europeia. Mas é preciso reconhecer que os europeus não podem muito. Eles têm os braços atados, o que não facilita muito a briga.

Além disto, é um pouco nebuloso o que vem ocorrendo: visto de longe, uma população se levanta contra a opressão. De perto o quadro é menos claro. Como todas essas revoltas espontâneas (Egito, Síria, etc), os adversários do presidente ucraniano são heterogêneos. Por exemplo, está claro que elementos da extrema direita e até nostálgicos da época em que as tropas de Hitler perseguiam os judeus da Ucrânia, estão manobrando. É uma coalizão onde se cruzam idealistas, jovens ávidos de dignidade e liberdade, pessoas que se sentem mais europeias do que russas, conservadores e indivíduos exaltados.

Imprecisão também do lado europeu. A UE não sabe absolutamente o que fazer. Inexiste unanimidade entre os 28 membros e há uma ausência total de perspectiva. Na realidade, os senhores de Bruxelas temem ser vencidos pelo entusiasmo europeu dos revoltados de Kiev.

Bruxelas propôs à Ucrânia assinar um acordo de associação com ela. A recusa de Yanukovich inflamou o país. Mas Bruxelas não tem vontade de ir mais além. A UE teme que os ucranianos interpretem este "acordo de associação" como uma precondição para uma adesão pura e simples do país à União Europeia. Mas Bruxelas não quer ouvir falar de adesão.

Outro impedimento: dinheiro. A Ucrânia, arruinada, está no abismo. Mas Bruxelas não prevê tirar o talão de cheques e muito menos concorrer em generosidade com a Rússia, que prometeu US$ 15 bilhões, com US$ 3 milhões já entregues e o restante foi prometido para o fim da semana.

Enfim, há a Rússia. Uma pedra no sapato europeu. Enquanto os dirigentes da UE alvoroçados falavam em sanções contra a Ucrânia, Vladimir Chizov, embaixador da Rússia em Bruxelas, alertava os 28 contra uma "medida punitiva que no mínimo seria inconveniente e em todo caso inoportuna".

A figura tenebrosa de Vladimir Putin chama atenção. Não devemos esquecer que, para o presidente russo, que jamais se conformou com o fim do império soviético, a Ucrânia e seus 45 milhões de habitantes constituem um presa cobiçada.

Putin intimida. Temível manipulador, cínico, brutal, sutil, até Merkel o teme. E ocorre que ele é um ator ineludível nas negociações sobre a Síria, o Irã e outras regiões efervescentes do globo.

Os europeus farão alguma coisa. Que, sem dúvida, será insuficiente para abrandar a determinação de Yanukovich e seu "padrinho russo". Além do que a UE, como de hábito, adota duas estratégias incompatíveis: de um lado ameaças, sanções, uma atitude de censura e de outro, uma pequena janela aberta para as negociações.

Angela Merkel, que se envolve cada vez mais na via diplomática, que até agora evitava, e tornou-se líder da diplomacia europeia, declarou esta semana que "A União Europeia manterá contatos estreitos com a Rússia". 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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