Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Kim e Trump encenam teatro de guerra

Para máquina de propaganda norte-coreana, passos e comentários de Trump em seu território são ouro

The Economist, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 05h00

Os comentários do presidente Donald Trump durante a reunião com Kim Jong-un devem ter agradado ao líder norte-coreano. Trump minimizou os recentes testes de mísseis de curto alcance da Coreia do Norte, alegando que os EUA não os consideram como testes de mísseis. O programa nuclear de Kim mal chegou a ser mencionado: para todo o mundo, parecia que Trump estava perfeitamente feliz em se envolver com a Coreia do Norte em seus próprios termos, implicitamente admitindo o status do regime de país nuclearmente armado como legítimo.

Esses comentários, juntamente com as fotos de Trump entrando na Coreia do Norte e dizendo que se sentia honrado por ser recebido por Kim, são ouro para a máquina de propaganda doméstica do Norte, obrigada a usá-los para demonstrar a perspicácia diplomática do grande líder. Eles podem, de certa forma, melhorar a imagem doméstica de Kim após o colapso da cúpula anterior da dupla, no Vietnã, em fevereiro.

O fracasso da Coreia do Norte em conquistar um alívio das sanções na reunião parece ter enfurecido tanto Kim que ele rebaixou seu principal negociador e há rumores de que tenha punido outros assessores. Mas a decisão de se encontrar com Trump novamente sugere que ele ainda tem esperança de se beneficiar da extensão das negociações. A efusão de Trump sobre sua amizade com Kim também deve polir a imagem do ditador internacionalmente.

Trump, por sua vez, aproveitou a ocasião para se congratular por salvar a região de um conflito devastador que, segundo ele, teria acontecido se não fossem os seus esforços. “Estamos em uma situação muito diferente da que estávamos há dois anos e meio”, disse. Ele reclamou repetida e demoradamente da mídia, cuja falta de valorização pelos seus esforços considerou “insultante”. Ele também parecia estar gostando da teatralidade da reunião, que foi reforçada por sua natureza supostamente improvisada.

Ainda não está claro se o encontro realmente foi organizado em apenas 24 horas. Por um lado, as cenas caóticas (incluindo a secretária de imprensa da Casa Branca entrando em uma briga com os agentes de segurança norte-coreanos) não sugeriam planejamento extensivo. Ao mesmo tempo, os dois líderes haviam trocado cartas nas semanas que antecederam a reunião, e Trump reuniu toda a sua equipe de negociadores nucleares em sua viagem planejada para Seul.

Se a pacificação é tomada como significativa de uma melhoria nas relações com uma ditadura desonesta, a reunião certamente teve algum valor. Mas contribuiu muito pouco para o objetivo dos EUA de persuadir a Coreia do Norte a desistir de suas armas nucleares. Em uma entrevista após seu encontro com Kim, Trump disse que as equipes de negociação dos dois lados se reuniriam nas próximas semanas para organizar conversas em nível de trabalho. 

Especialistas em controle de armas esperam há mais de 13 meses pelo início do processo, desde que Trump anunciou seu encontro com Kim em Cingapura. O fracasso em chegar a conversas importantes foi tomado como um sinal de que a Coreia do Norte não estava realmente falando sério sobre o desarmamento. Mesmo que os negociadores finalmente comecem a discutir os detalhes, há poucas razões para imaginar que Kim finalmente esteja pronto para entregar suas armas nucleares. Mas ele e Trump gostam de uma sessão de fotos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO  

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