Kim exalta superioridade militar coreana

Novo líder faz seu primeiro discurso em festa de centenário de seu avô, dando início oficial à sua era

CLÁUDIA TREVISAN, LISANDRA PARAGUASSU, ENVIADAS ESPECIAIS / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2012 | 03h04

A exaltação do poderio militar deu o tom das celebrações do centenário do fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung. O país exibiu mísseis de longo alcance que nunca haviam sido apresentados em público, enquanto seu novo líder, Kim Jong-un, disse que manterá a política "Exército em primeiro lugar", que dá prioridade ao investimento em defesa acima de tudo.

"A superioridade em tecnologia militar não é mais monopólio dos imperialistas e a era em que nossos inimigos usavam bombas atômicas para nos ameaçar e chantagear está terminada", declarou Kim Jong-un ontem, em seu primeiro discurso desde que assumiu o poder, em dezembro.

O centenário foi a primeira grande celebração presidida pelo novo líder, de apenas 29 anos, e teve forte caráter simbólico para a consolidação de seu poder. Ao falar na Praça Kim Il-sung, Kim Jong-un deu início oficial à sua era, após uma semana na qual foi nomeado para os cargos máximos de comando do país.

O discurso surpreendeu a população, ao destoar do estilo de seu pai, Kim Jong-il, que falou em público uma única vez em seus 17 anos de governo - e pronunciou uma única frase.

Esse é mais um aspecto no qual o terceiro Kim tenta se parecer com o primeiro, que é a principal fonte de legitimidade do regime e pronunciou inúmeros discursos ao longo de sua vida. O novo líder já explora a semelhança física entre ambos, imitando o corte de cabelo, os gestos e a maneira de vestir do avô.

Em sua estreia como orador, Kim Jong-un leu em tom monótono o discurso de 20 minutos e foi interrompido diversas vezes pelos aplausos da plateia formada por militares e civis convidados para o evento. "Vamos avançar até a vitória final", afirmou ao fim do pronunciamento.

Kim Jong-un caminhou de um extremo a outro da tribuna, acenando para o público, que aplaudia ininterruptamente com rostos voltados para ele. A surpresa veio na última parte do desfile, com a apresentação de seis mísseis do mesmo modelo, no único momento em que os oficiais que estavam na tribuna aplaudiram a parada.

O especialista francês Christian Lardier, que assistiu ao evento, disse que os mísseis parecem ser uma adaptação do Taepodong-2, que foi testado em 2006, mas falhou 40 segundos depois de ser disparado.

Mas ele ressaltou que os foguetes também podem ser apenas modelos com o objetivo de impressionar o público interno e externo ou mísseis que ainda estão em desenvolvimento. Nenhum deles foi testado até agora e não se sabe se podem voar.

A parada militar ocorreu três dias depois de o país desafiar a oposição internacional e lançar o foguete Unha-3, que caiu um minuto após seu lançamento. Pyongyang afirma que o objetivo era colocar um satélite em órbita. Mas Washington sustenta que os norte-coreanos realizaram um novo teste com o Taepodong-2. Em outro gesto contrastante com a gestão de seu pai, o governo de Kim Jong-un divulgou na imprensa oficial o fracasso no projeto de satélite, ainda que de maneira telegráfica. Notícias negativas costumam estar ausentes dos meios estatais.

Analistas acreditam que a Coreia do Norte já tenha de seis a oito bombas atômicas de plutônio, mas ainda não teve sucesso no desenvolvimento de um míssil para transportá-las.

Kim Jong-un também prometeu desenvolver a economia do empobrecido país, mas mesmo nessa área deu destaque às Forças Armadas. "O Exército Popular da Coreia será pioneiro na abertura do caminho para uma nação forte, poderosa e próspera."

Depois da festa militar para convidados, foi a vez do povo de Pyongyang comemorar o centenário do patriarca do país. O espetáculo de 30 minutos de fogos de artifício reuniu na noite de ontem milhares de moradores às margens do Rio Taedong. Sentados à espera da chegada de Kim Jong-un, os norte-coreanos cantavam e riam, em um dos poucos momentos de espontaneidade.

Os homens de terno e gravata, as mulheres de vestidos tradicionais, os habitantes da capital transformaram o gramado em uma arquibancada. Kim Jong-un foi longamente aplaudido, como sempre, ao chegar para assistir o show de fogos de artifício em homenagem a seu avô. Ouviu, mais uma vez, os gritos de "daremos nossa vida para defender Kim Jong-un".

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