Kim Jong-un e a imprevisibilidade do regime em Pyongyang

Líder norte-coreano incomoda diplomatas ocidentais

É COLUNISTA, ESCRITOR, FRED, KAPLAN, SLATE, É COLUNISTA, ESCRITOR, FRED, KAPLAN, SLATE, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h03

Se a Coreia do Norte fosse um país normal, até mesmo uma ditadura normal, não seriam tão preocupantes as ameaças de seu líder, Kim Jong-un. Mas esse não é um país normal. Seu poder deriva da sua imprevisibilidade. Sua diplomacia consiste em sair bruscamente da linha. Seus rígidos controles domésticos são legitimados pela constante situação de emergência. Acrescentemos a isso um pequeno arsenal nuclear, uma fachada política opaca e um novo senhor muito jovem cuja única reivindicação ao trono é pela herança dinástica - portanto, não é surpresa o fato de as crises serem constantes.

No entanto, essa última é mais inquietante do que o normal. Não em razão das ameaças mirabolantes de Kim de transformar Seul num "mar de fogo" - isto é uma declaração perene constante do manual de ameaças da dinastia Kim. Também não se deve ao fato de ele ter declarado sem efeito o armistício de 1953 que pôs fim à Guerra da Coreia - seu pai e seu avô, Kim Jong-il e Kim Il-sung, fizeram a mesma coisa diversas vezes. E não é porque ele mobilizou o Exército ou ordenou à população que se preparasse para fugir - isto também faz parte do curso totalitário.

O que levou muitas autoridades e observadores a se inquietar é tudo isso e também o fato de que Kim Jong-un - de 29 anos, no poder há quase um ano - ainda é uma figura desconhecida. Kim Jong-il tinha 52 anos quando sucedeu a seu pai e passou 25 anos se preparando em várias posições dentro do partido. Kim Jong-un não teve nenhuma experiência militar ou política antes de assumir o controle do Exército, do partido e do país.

Kim Jong-il aprendeu as sutilezas da administração do poder, domestica e internacionalmente, com um mestre hábil. Estudiosos e diplomatas que estudam o regime observam uma continuidade no comportamento dos dois velhos líderes. A ex-secretária de Estado de Bill Clinton, Madeleine Albright, manteve longas negociações com Kim, em 2000, sobre uma possível proibição de lançamento de mísseis e, segundo seus assessores, ele tinha um nítido conhecimento e controle dos assuntos. Inversamente, Kim Jong-un teve pouco tempo para aprender alguma coisa. Seu comportamento é difícil de ser compreendido e, às vezes, é desconcertante.

Por exemplo, em 29 de fevereiro de 2012, o presidente Barack Obama decidiu fornecer aos norte-coreanos 240 mil toneladas de alimentos a título de ajuda se o país suspendesse seus testes nucleares e de mísseis. Em 13 de abril, antes de a ajuda ser embarcada, a Coreia do Norte lançou um míssil. Obama cancelou o envio e promoveu uma resolução no Conselho de Segurança da ONU denunciando o lançamento como "grave violação"da lei internacional.

Kim reagiu com um discurso no qual tratou o lançamento como uma demonstração da "superioridade militar" do país e prometeu resistir à pressão imperialista. Desde então, lançou outro satélite no espaço e conduziu dois testes nucleares subterrâneos - o que levou a novas condenações pelo Conselho de Segurança.

Tensão. De certo modo, isso também não é novidade. Kim Il-sung também desafiou a ONU porque sabia que podia contar com a vizinha China para manter os negócios e a ajuda fluindo. No entanto, os velhos líderes norte-coreanos manipulavam as ansiedades do inimigo. Eles ameaçavam e esperavam que o inimigo (EUA, Coreia do Sul, ONU ou uma combinação de todos) oferecesse algo em troca de sua moderação.

Eles recebiam a recompensa e se controlavam, mas o novo Kim aceita a oferta e depois vai em frente e leva a cabo a ameaça, mesmo antes do pagamento e necessitando desesperadamente de ajuda alimentar. Que diabo é isso? É o que autoridades e analistas se perguntam. Kim Jong-un sabe fazer o jogo de sua família? Sempre foi arriscado, mas, antigamente, quando o pai e o avô estavam vivos, tudo ficava em paz, pelos menos durante um tempo, se o Ocidente cumprisse sua parte no jogo. Os diplomatas americanos aprenderam como se comportar durante os governos de George H. Bush e Bill Clinton. Alguns, finalmente, entenderam o que era esse jogo nos últimos dois anos de George W. Bush.

No entanto, agora, as regras são menos claras. Kim Jong-un acredita na sua retórica ridícula? Ou é uma tática,como a usada por seus antecessores, apenas um pouco mais confusa? De qualquer modo, ele está querendo demais. Parece estar avaliando erroneamente a situação. E julgamentos equivocados, como nos diz a história, podem levar à guerra.

Alguns outros fatores agravam a situação. Em resposta aos acessos de Kim, a presidente sul-coreana, Park Geun-hye, não só advertiu que reagirá a qualquer ato de agressão como também ameaçou adotar medidas preventivas contra o vizinho se for necessário. Por outro lado, os sul-coreanos perguntam-se se não seria o momento de a Coreia do Sul criar seu próprio arsenal atômico.

Nos últimos anos, as forças navais da Coreia do Norte e do Sul defrontaram-se algumas vezes em razão de uma disputada fronteira marítima, resultando em mais de 300 mortes de ambos os lados. O episódio mais recente, em novembro de 2010, teve como consequência o naufrágio de um navio sul-coreano com a morte de 45 marinheiros. O governo da Coreia do Sul recuou. O conflito foi solucionado gradativamente. Se uma disputa similar eclodir hoje, a presidente Park poderá se ver compelida a retaliar com mais força e Kim poderá se ver forçado a reagir à altura. E a disputa pode se intensificar.

As razões de Kim são ainda mais confusas diante do que parece uma crise doméstica cada vez mais intensa. A Coreia do Norte pode ser a sociedade mais fechada do mundo, mas não é mais tão reclusa como era. Na década passada, observamos alguns experimentos populares, limitados, com mercados comerciais e uma movimentação considerável na fronteira com a China. Desertores disseram a autoridades americanas que a população norte-coreana está ciente do nítido contraste entre a própria vida e o restante do mundo. Diante desta crise ameaçadora, um regime totalitário pode se abrir mais - o que pode levar ao desaparecimento do regime (como ocorreu com a União Soviética) - ou então soar ainda mais o alarme e tentar convencer a população de que está em perigo constante de um ataque externo, provocando um estado de espírito que pode dar origem a pressões para o governo atacar preventivamente.

Alguns duvidam que Kim adote alguma ação nas próximas semanas, quando dois exercícios importantes em conjunto dos Exércitos sul-coreano e americano tiverem início. A Coreia do Norte, que sempre é convidada a participar como observadora, mas sempre recusa o convite, organiza seus próprios exercícios no mesmo período. No entanto, ambos os lados estabelecem limites: existem demonstrações de solidariedade, manifestações teatrais de poder, mas ninguém deseja que a situação degenere. Contudo, quem sabe o que Kim Jong-un pretende?

Daniel Sneider, diretor associado do Shorenstein Asia Pacific Research Center, da Universidade Stanford, explica assim a situação: "As provocações da Coreia do Norte são bastante calculadas. Eles costumam chegar ao ponto de forçar o que seria uma grave escalada da situação. No entanto, o contexto dessas provocações - a incerteza quanto ao que está por trás e do que podem ocasionar - muda seus cálculos. O discurso é mais duro do que a ação, Entretanto, ainda assim, é importante ficar em alerta", disse o professor. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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