Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Kim pretende concluir desnuclearização norte-coreana até fim do primeiro mandato de Trump

Líder da Coreia do Norte enviou mensagem ao presidente americano reiterando seu compromisso; analistas veem ação como estratégia para ganhar tempo

O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 15h23

SEUL - O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, enviou uma mensagem ao presidente americano, Donald Trump, afirmando que pretende alcançar a completa desnuclearização da Península Coreana até o fim de seu mandato, em janeiro de 2021. A mediação entre os dois líderes foi realizada pelo enviado sul-coreano Chung Eui-jong e, junto da mensagem, Kim enviou um ramo de oliveira a Trump. Chung divulgou o conteúdo da comunicação entre os dois nesta quinta-feira, 6.

O líder norte-coreano expressou frustração pelo que chamou de falha de Washington ao negociar com boa-fé, mas disse que ainda tem confiança em Trump. Kim negou que tenha falado mal do líder americano, mesmo a seus aliados mais próximos, desde que os dois se encontraram em Cingapura, em 12 de junho.

Chung foi enviado pelo presidente sul-coreano, Moon Jae-in, a Pyongyang na quarta-feira, na esperança de retomar as negociações entre Coreia do Norte e Estados Unidos sobre como desnuclearizar a Península da Coreia. Moon planeja ir a Pyongyang no dia 18 deste mês para se encontrar com Kim e discutir a melhoria do relacionamento com o Norte, incluindo uma possível cooperação econômica.

Segundo Chung, Kim se disse frustrado que seu compromisso com o desarmamento nuclear não tenha sido levado a sério. Ele reiterou sua disposição com o desarmamento nuclear do país quando se reuniu com Moon em abril e Trump em junho. Para o norte-coreano, enquanto a Coreia do Norte tomou medidas importantes rumo à desnuclearização, Washington não fez o suficiente em troca.

"Ele expressou fortemente que sua confiança no presidente Trump continua - e continuará - inalterada, mesmo que tenham ocorrido dificuldades recentes na negociações entre o Norte e os Estados Unidos", disse Chung. "Ele disse que espera poder eliminar 70 anos de história de hostilidade com os Estados Unidos, melhorando as relações Coreia do Norte - EUA e realizando a desnuclearização até o fim do primeiro mandato do presidente Trump."

Chung disse que Kim lhe deu mensagens para mandar a Washington, que funcionários disseram ter enviado ao conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton. O enviado não revelou o conteúdo das mensagens, exceto para dizer que Kim quer garantias de Washington de que não cometeu um erro ao se comprometer com a desnuclearização da Península Coreana.

Conforme transmitidas pelo enviado sul-coreano, as declarações de Kim sinalizaram que a Coreia do Norte está disposta a negociar a desnuclearização com Trump pessoalmente, e o presidente tem se demonstrado mais disposto a negociar com o país do que qualquer um de seus antecessores. As declarações também sugeriram que Kim poderia aceitar a rápida desnuclearização que a administração Trump busca, caso receba os incentivos certos.

A reunião em Cingapura fez de Trump o primeiro presidente dos Estados Unidos a se reunir com um líder norte-coreano. Desde então, o presidente se vangloria de seu relacionamento "caloroso" com Kim, que já testou mísseis continentais capazes de atingir os Estados Unidos e tem sido acusado de violações abusivas dos direitos humanos, incluindo a execução sumária de seu tio e outros inimigos políticos.

Analistas dizem que Kim está cortejando Trump na esperança de separá-lo de seus conselheiros linha-dura, de maneira a impedir que o presidente retorne às ameaças de ação militar que fez no ano passado. "Kim Jong-un está ganhando tempo", disse Lee Byong-chul, membro sênior do Instituto para a Paz e Cooperação em Seul. "Ele provavelmente viu que não há nada de bom ao provocar Trump", especialmente quando o presidente americano "enfrenta problemas legais profundos em casa e desordem em sua administração".

A Agência Central de Notícias Coreana (KCNA) disse que Kim havia reafirmado o compromisso da Coreia do Norte de desnuclearização durante a reunião com Chung, mas o canal não disse se Kim adotaria grandes passos rumo ao objetivo. O líder norte-coreano não ofereceu um inventário completo de todas as armas nucleares e materiais físseis, conforme pedido por Washington. Além disso, o líder também não ofereceu qualquer plano detalhado para o desarmamento.

Ele também repetiu a demanda de longa data de seu país de que a desnuclearização deve incluir a remoção da "ameaça nuclear" à Coreia do Norte, referência aos exercícios militares dos EUA na região. / NYT

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