Kircherismo completa 10 anos no poder

Sem sucessor à vista, governo da Argentina tem dificuldades para manter a economia e os escândalos de corrupção sob controle

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h06

O kirchnerismo completa dez anos no poder na Argentina em busca de um nome para dar continuidade a seu projeto político. Sem Cristina como candidata que ostente a "grife Kirchner", o governo terá de encontrar uma alternativa entre os candidatos de maior fidelidade a ele, como o vice-presidente Amado Boudou ou os governadores Juan Manuel Urturbey, de Salta, e Jorge Capitanich, do Chaco.

Nenhum deles, porém, parece ser capaz de disparar nas pesquisas. "Cristina poderia optar pelo governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, bastante popular, mas ele não é aceito pelo kirchnerismo duro", explica a analista Mariel Fornoni.

A história do kirchnerismo na Casa Rosada começou em 25 de maio de 2003, quando Néstor Kirchner assumiu a presidência. Os argentinos, então, nem sequer sabiam soletrar o sobrenome do desconhecido ex-governador de Santa Cruz, na Patagônia.

Kirchner foi eleito com apenas 22% dos votos, a menor votação da história do país. Na Praça de Maio, apenas duas centenas de curiosos aglomeravam-se para ver o novo presidente. O país se recuperava da crise econômica de 2001, mas o futuro era incerto. Dez anos depois da posse do marido, Cristina comanda as celebrações da militância kirchnerista, reunindo milhares de pessoas transportadas até o centro de Buenos Aires graças ao aparato de prefeitos e governadores aliados.

Com o país naufragando em problemas econômicos e sociais, a insatisfação da classe média expressa em panelaços e a ampliação das denúncias de casos de corrupção, Cristina tem pouco o que celebrar.

Em 2005, com o poder consolidado após as eleições parlamentares e diversos inimigos derrotados, Néstor começou a preparar o caminho para sua mulher. O plano era alternar marido e mulher no poder de forma indefinida.

Reforma. "O projeto inicial era de 16 anos", disse na semana passada um dos deputados, atualmente senador, que não quis se identificar. Cristina foi eleita em 2007. O casal tentaria uma nova presidência com Néstor como candidato em 2011, mas sua morte, em outubro de 2010, mudou drasticamente os planos.

Sem o marido, Cristina foi candidata à reeleição e venceu com 54% dos votos. No entanto, bloqueou as chances de um terceiro mandato em 2015, já que a Constituição só permite uma reeleição consecutiva. A alternativa seria uma reforma constitucional.

No entanto, o cenário não é favorável, segundo Mariel Fornoni. Para ela, Cristina tinha 64% de aprovação quando foi reeleita. Na época, a desaprovação era de 29.

Hoje, pouco mais de um ano e meio depois, a presidente tem só 29% de aprovação e 59% de desaprovação. "Não há humor social para reformas agora. Mas tudo dependerá das eleições parlamentares de outubro."

Economia. Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, afirmou ao Estado que um dos fatores para a queda da popularidade de Cristina são os problemas econômicos. As denúncias de corrupção também estão chamando mais a atenção da população do que anos atrás.

"A economia está estancada, fato que torna as pessoas mais intolerantes com a corrupção", diz.

Além disso, Fraga destaca o peso das redes sociais na mobilização de setores da classe média ao longo do último ano em diversos panelaços contra a presidente. "Isso não existia antes", afirma.

No entanto, os analistas argentinos destacam que a presidente Cristina conta com a vantagem de ter como adversária uma oposição dividida e envolvida em intensas disputas internas. Faltando apenas cinco meses para as eleições parlamentares, os adversários ainda não conseguiram formar alianças para enfrentá-la.

Os economistas argentinos destacam que os dez anos de kirchnerismo foram marcados por três etapas. A primeira, de 2003 a 2006, foi caracterizada por uma alta do PIB, que chegou a uma média anual de 8,9%, com uma inflação de 7,1% ao ano.

A segunda etapa, de 2007 a 2011, coincide com o despertar da inflação, que chegou a 19,5% ao ano, com um crescimento médio de 7,1% do PIB. No entanto, os problemas concentraram-se no terceiro período, desde 2012, com um crescimento de apenas 1,7% do PIB e uma inflação em escalada, de 23,4% ao ano.

Manipulação. A pobreza, que atingia 53% dos argentinos quando Kirchner tomou posse, caiu para 20% em 2006. No entanto, a partir daí começam as divergências sobre o índice, que passou a ser manipulado pelo governo.

De acordo com Cristina, a Argentina teria não mais do que 6,5% de pobres, fato que a tornaria um virtual paraíso da classe média. No entanto, sindicatos e a Universidade Católica Argentina afirmam que a pobreza retomou seu crescimento e, atualmente, afeta 27% dos argentinos.

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