Kirchner alerta para o retorno da extrema direita

O presidente Néstor Kirchner decidiu envolver-se pessoalmente no caso do desaparecimento de Julio López, testemunha crucial no recente julgamento de Miguel Etchecolatz, um dos mais famosos ex-torturadores da última ditadura militar (1976-83). O governo e os organismos de defesa dos direitos humanos suspeitam que López - que desapareceu há 12 dias - foi alvo de uma vingança de setores da extrema direita. "O passado não está derrotado nem vencido", alertou Kirchner, para indicar que pessoas vinculadas com o regime militar ainda estão ativas, dispostas a impedir o andamento dos processos contra os responsáveis pelo assassinato de 30 mil civis nos anos 70.López, de 77 anos, desapareceu de sua casa, em La Plata, na véspera do encerramento do julgamento de Etchecolatz. O ex-torturador foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de seis pessoas e tortura de outras duas (uma delas, o próprio López). Kirchner, que chamou López de "companheiro" (o presidente, embora não o conheça pessoalmente, teve militância política com setores da esquerda light do peronismo nos anos 70 na mesma cidade, La Plata), afirmou que existem setores que "querem semear o medo". Duas testemunhas já desistiram de participar dos julgamentos, por temor a represálias. "Fiquemos alertas, argentinos, não podemos deixar que esse passado se repita", disse Kirchner. Ele prometeu proteção às testemunhas que prestem depoimento contra os ex-integrantes da Ditadura. Os juízes que condenaram Etchecolatz receberam ameaças anônimas de morte.Analistas afirmam que o desaparecimento de López, mais do que uma vendetta contra o ex-prisioneiro - ou ainda, a intenção de aterrorizar testemunhas de outros processos - seria um recado direto para Kirchner, que desde sua posse, em 2003, estimulou os processos na Justiça de ex-integrantes da ditadura.ManifestaçõesEm maio passado, grupos de extrema direita reuniram 3 mil pessoas no centro portenho, para reivindicar a Ditadura. Os grupos - entre eles o "Por nossos Heróis" e os "Mortos pela Subversão" - anunciaram nesta quinta-feira que pretendem realizar uma nova manifestação no dia 5 de outubro.Na quarta-feira, mais de 10 mil pessoas marcharam até a Praça de Maio para exigir o reaparecimento de López e proteção do governo às testemunhas. Nesta quinta-feira, uma nova marcha de protesto - liderada pela organização Mães da Praça de Maio - reuniu menos de 5 mil pessoas para reclamar o reaparecimento de López e o castigo aos ex-integrantes da ditadura.

Agencia Estado,

28 de setembro de 2006 | 21h03

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.