Kirchner alterará medição de inflação

Criticado por mascarar índice, governo deve adotar modelo americano, que expurga do cálculo preço da energia

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 00h00

Calcanhar-de-aquiles do governo do presidente Néstor Kirchner, a inflação é principal foco de críticas da oposição para desprestigiar a candidatura da primeira-dama Cristina Kirchner à presidência da república. Segundo os opositores, a inflação real deste ano será superior a 20%. O governo, por seu lado, afirma que ela será inferior a 10%. A oposição contra-ataca e acusa o governo de manipular os índices calculados pelo outrora respeitado Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).Na reta final da campanha para a eleição de amanhã, Cristina defendeu o índice do governo e acusou a oposição de conspirar contra a administração de seu marido. Por causa da polêmica, o governo agora promete instalar uma medição de inflação inspirada no modelo americano. Ao longo de 2006, Kirchner tentou conter a inflação por meio de um polêmico congelamento de preços. Quando o sistema de pressionar os empresários a manter os preços fracassou, Kirchner optou por "maquiar" o índice de inflação e interveio no Indec. Desde janeiro, em várias ocasiões, produtos ou serviços que subiram demais foram excluídos do cálculo inflacionário.Nesta semana, uma equipe do Indec viajou para os EUA para analisar de perto a medição americana. Esse sistema contempla um índice de inflação geral e um segundo, denominado "core inflation" (inflação núcleo ou subjacente), que exclui preços voláteis, como o de energia. Dessa forma, Washington divulga um índice com a variação do preço da energia e outro sem. O argumento é que o preço do petróleo, por exemplo, é um fator alheio ao país, já que depende dos mercados internacionais. O plano dos Kirchners é a criação de um índice que siga algumas linhas do método americano, entre elas a medição de produtos cujo preço varia excessivamente por questões climáticas ou sazonais. Além disso, a composição da tabela de consumo dos argentinos será "atualizada", já que a atual segue o padrão dos anos 90. A implementação da nova metodologia ocorreria de forma gradual "a partir de novembro ou dezembro", segundo declarou o governador de Mendoza, Julio Cobos, candidato a vice na chapa de Cristina. Segundo Cobos, o novo sistema excluiria produtos "de baixo consumo ou que não são de primeira necessidade".O argumento do governo é que o índice de inflação deve refletir somente as modificações permanentes e estruturais dos preços. Assim, o índice dificilmente exibiria grandes saltos inflacionários.Hoje, a Argentina calcula dois índices de inflação. Um da Grande Buenos Aires e outro do restante do país.Os economistas estão desconfiados em relação à proposta de uma nova metodologia. Eles consideram que, mais do que determinar novos esquemas, seria necessária maior precisão na medição dos produtos que compõem hoje a cesta de amostragem da inflação.

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