Kirchner continua dando as cartas na Argentina

Quatro meses após a posse de Cristina, Néstor mantém o comando, ressaltam analistas

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2008 | 00h00

"Ei, Néstor! Quem é que manda? É tudo como antes?", perguntou, na saída de um comício, um repórter do programa satírico Caiga Quien Caiga ao ex-presidente argentino Néstor Kirchner. "Sim", respondeu com sorriso maroto o ex-presidente. "Tudo é como antes... quem manda é ela", emendou, em alusão a sua mulher e sucessora, a presidente Cristina Kirchner. Mas, segundo analistas políticos, a resposta de Kirchner não passa de uma ironia.Cristina transformou-se desde sua posse, em dezembro, em co-protagonista do poder. Os politólogos ressaltam que seu marido é que tem o comando.O poder presidencial tem dois endereços. Um deles é Balcarce, 50 - a Casa Rosada, o palácio de governo, onde trabalha Cristina. O outro é Olga Cossettini, 1553, nas docas orientais do caro bairro de Puerto Madero - onde, desde dezembro, o ex-presidente Kirchner recebe constantemente empresários, governadores, deputados, prefeitos e líderes sindicais. Sete quarteirões separam os dois escritórios."O presidente Néstor Kirchner... quero dizer, o ex-presidente Néstor Kirchner..." Esse ato falho já ocorreu várias vezes da parte de ministros do gabinete de Cristina e de líderes parlamentares nos últimos quatro meses. A gafe deixa claro que no inconsciente dos integrantes do próprio governo, Kirchner é o verdadeiro poder no casal.Os analistas políticos sustentam que Kirchner esteve por trás das contramanifestações feitas por grupos de piqueteiros (desempregados que recebem subsídios estatais e funcionam como "tropa de choque" do governo) contra os panelaços realizados há duas semanas e meia pela classe média portenha. Os piqueteiros foram liderados por Luis D?Elia, um polêmico ativista social de fluida relação com Kirchner.Kirchner também teria estado por trás da decisão do governo de usar a linha dura no confronto com os produtores agropecuários, que realizaram recentemente uma paralisação que durou 21 dias e provocou desabastecimento. No meio do conflito entre Cristina e produtores, o ex-governador da Província de Entre Ríos, Jorge Busti, enviou ao governo uma série de sugestões sobre como desativar a bomba-relógio com os agricultores. Mas a carta, em vez de ter Cristina como destinatária, foi a Kirchner.Pelo número 1.553 da Rua Olga Cossettini também passou o líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), o poderoso Hugo Moyano. Após conversar com Kirchner, Moyano reuniu-se com Cristina para fechar os acordos salariais de 2008.Há pouco mais de um mês, uma pesquisa da Universidade Aberta Interamericana indicou que 54,2% dos argentinos consideram que Cristina compartilha o governo com Kirchner. Só 4,9% consideram que o peso de Kirchner no governo é nulo. A analista de opinião pública Graciela Römer disse ao Estado que Kirchner possui um peso "formal" e outro "informal" no governo. Segundo ela, o formal é a solidificação do Partido Justicialista (peronista), "um objetivo político razoável, como em qualquer democracia". O problema, destaca, é sua presença informal no governo, "que fica evidente em outras esferas, como em atos que têm aparência de ser partidários, mas não são - por exemplo, na recente disputa de Cristina com os produtores agropecuários". Com ironia, comenta: "Há uma integração forte entre os Kirchners. É impossível separar a mesa de trabalho do leito matrimonial."Roberto García, diretor do jornal Ámbito Financiero, ressalta que a população considera que Kirchner "é o responsável pelo estilo, pelos discursos e pela política, mas os insultos são desferidos contra Cristina".Os colunistas políticos afirmam que Kirchner também convoca reuniões na residência oficial de Olivos com os ministros de Cristina e dá ordens aos integrantes de um gabinete que, apenas formalmente, não comanda. Enquanto isso, ele prepara os detalhes finais para a convenção peronista, marcada para junho. Ele pretende ser ungido presidente do poderoso partido, cargo que ampliará sua influência em todo o país.Os analistas, no início do ano, consideravam que Kirchner manteria um perfil baixo pelo menos no primeiro semestre, de forma a dar espaço a Cristina. Mas o retorno público de Kirchner foi necessário antes disso. Na quinta-feira, ele reapareceu num comício com centenas de prefeitos. A Casa Rosada transmitiu o comício como se fosse um ato governamental, de forma gratuita, via satélite, aos canais de TV. Por trás do ressurgimento de Kirchner, afirmam os analistas, está a necessidade urgente de reforçar o poder e a imagem de Cristina, em queda acelerada desde a crise com os produtores agropecuários.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.