Kirchner exercia e mantinha o poder unindo facções

Político astuto, Néstor Kirchner armou um esquema para retornar ao poder, sucedendo ao atual governo. Já tinha se apresentado como candidato para as eleições de outubro de 2011 e esperava que sua mulher, que o substituiu em 2007, colocasse nele a faixa presidencial para mais um mandato de quatro anos. Seguindo a mesma fórmula, em 2015 os papéis se inverteriam. Ele entregaria a faixa a Cristina. Formalmente, os prazos constitucionais seriam respeitados tranquilamente. O objetivo era conservar o poder nas mesmas mãos.

Ricardo Kirschbaum, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Kirchner atuava como o que realmente era: o chefe político de um espaço para o qual convergiam tanto setores da esquerda como o aparelho sindical - inimigos mortais na década de 70 - e também os barões peronistas do centro urbano e seus subúrbios, além de alguns caudilhos de províncias. As atitudes progressistas nas quais persistiu tornou menos visível e mais aceitável sua aliança com a ala mais retrógrada do Partido Justicialista. Não era um líder carismático, nem despertava grande simpatia. Mas era um líder que exercia a fundo o poder - o que lhe permitiu manter a coalizão unida, independente dos recursos que precisou usar para tal fim.

Kirchner sempre foi um homem inclinado ao acúmulo - de poder, de aliados, de afetos, de dinheiro - e suspeitava de tudo. Nos últimos meses, com problemas de saúde cada vez mais graves e talvez pressentindo a aproximação ameaçadora da morte, achava que sua presença era fundamental para que o projeto que personificava não se despedaçasse.

O controle rigoroso do poder produziu um governo fechado em si mesmo, com uma lógica política cuja visão norteadora devia ser nítida para que as contradições funcionassem - e estimulassem uma epopeia que pudesse atuar como camuflagem das decisões que contradiziam o que afirmavam combater. A guerra contra os meios de comunicação não leais fazia parte da estratégia.

Seria a História uma rede que aprisiona o homem em determinadas estruturas que se repetem de uma época a outra, como afirmou Alejo Carpentier? Não está provado. Num ato em memória a Kirchner, o político Hugo Moyano exaltou o ex-presidente e o colocou no Olimpo junto de Perón e Evita. As pessoas que assistiam à cerimônia aplaudiram dando vivas à CGT (Confederação-Geral dos Trabalhadores), insistindo na vigência de uma aliança que deve prosseguir, como se a morte de Néstor Kirchner tivesse colocado essa certeza em discussão.

O ex-presidente era um político pragmático que portava o timbre justicialista, apesar das suas ambiguidades. Esse fervor inusitado pela política e pelo poder levou Kirchner a aproveitar ao máximo a oportunidade que lhe foi oferecida por Eduardo Duhalde. Acertou ao renovar a corte, renegociar a dívida externa e devolver o poder para o Estado, embora tenha desperdiçado um momento excepcional para propor e levar adiante questões estruturais que poderiam ter começado a modificar problemas básicos da economia argentina. Ainda há tempo para isso.

Talvez a marca do dia a dia de sua militância política e os riscos ocultos do cotidiano foram, para ele, mais urgentes do que temas intelectuais com os quais nunca se sentiu muito à vontade.

O desaparecimento de um chefe político e, além disso, um candidato, coloca em discussão assuntos que deverão ser considerados por Cristina. Sua candidatura à reeleição foi lançada por Moyano, que se referiu também a uma reestruturação do Partido Justicialista. O sindicalista sabe que, depois da dor e da tristeza, esses espaços políticos têm que ser ocupados rapidamente./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É DIRETOR-GERAL DO "CLARÍN"

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