Kirchner negocia com oposição pela 1ª vez

Governo e rivais tentam definir governabilidade nos próximos meses

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2009 | 00h00

Depois de seis anos sem pôr os pés na Casa Rosada, líderes da oposição realizaram ontem, pela primeira vez, uma reunião com o governo. Tanto Néstor Kirchner, presidente entre 2003 e 2007, quanto sua mulher e sucessora, Cristina, jamais haviam dialogado com a oposição. A recente derrota nas eleições parlamentares, porém, fez o governo perder a maioria no Congresso e tornou o entendimento obrigatório para dar governabidade a Cristina.O anfitrião do encontro foi o ministro do Interior, Florencio Randazzo, homem de confiança dos Kirchners. Até ontem, não havia previsão sobre uma eventual participação da presidente na reunião, em que seriam discutidos o crescimento da pobreza, a manipulação do índice de inflação, o conflito com o setor ruralista e os poderes especiais que o governo possui na área econômica.Segundo o senador Gerardo Morales, presidente da União Cívica Radical, um dos partidos opositores que participaram do encontro, esta é a última chance de diálogo que tem o governo. "Cristina está gastando sua última bala de prata", disse. O chamado do governo provocou uma divisão na oposição. A deputada Elisa Carrió, do Acordo Cívico Radical, recusou-se a comparecer à Casa Rosada. Segundo ela, o fórum adequado para conversar com o governo é o Congresso Nacional.Ontem, paralelamente ao encontro, os líderes das bancadas governistas no Congresso se reuniram com seus colegas da oposição para definir a agenda parlamentar dos próximos meses.Um dos temas mais sensíveis na negociação com a oposição é a prorrogação dos "superpoderes econômicos", pacote de leis que permite, desde 2003, que a presidente altere o orçamento nacional sem consultar o Legislativo. Diante da resistência da oposição, o governo negocia ceder algumas de suas prerrogativas em troca de manter parte desses superpoderes, pelo menos até o final do ano.Na reunião de ontem, ambos os lados também começaram a discutir eventuais reduções no imposto sobre exportação de produtos agrícolas. Os tributos são o centro do conflito entre o governo e o setor ruralista, apoiado pela oposição.Poucas horas antes da reunião, a cúpula da Igreja Católica pediu "um diálogo construtivo". Em comunicado, a Comissão Nacional de Justiça e Paz, da Conferência Episcopal Argentina, pediu que os dois lados tentassem encontrar pontos comuns e relevassem as diferenças. CORREÇÃOEm parte da edição de ontem da reportagem "Fortuna dos Kirchners cresce 572% desde a chegada ao poder, em 2003", uma casa decimal foi suprimida do valor do patrimônio declarado pelo casal Kirchner na época. A cifra mais precisa é US$ 1,78 milhão.

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