Kirchner pede demissão de chavista

Presidente argentino exige que Hugo Chávez afaste número 2 da PDVSA por envolvimento no ?caso da maleta?

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 00h00

O presidente argentino, Néstor Kirchner, pediu ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a cabeça de Diego Uzcateguy Matheus, vice-presidente da estatal petrolífera venezuelana PDVSA e presidente da empresa na Argentina, de acordo com a edição de ontem do jornal El Clarín, de Buenos Aires. O governo argentino considera Uzcateguy responsável pela carona dada ao empresário Guido Antonini Wilson, seu compatriota, num jatinho alugado pela estatal argentina de energia Enarsa (supostamente a pedido de funcionários da PDVSA). No dia 4, Antonini desembarcou em Buenos Aires, proveniente de Caracas, carregando uma maleta com US$ 790 mil não declarados. Como agravante, o filho do vice-presidente da estatal venezuelana, Daniel Uzcateguy Speech, também estava no vôo. A maleta de Antonini é o centro do novo escândalo que abala o governo Kirchner, ameaça a campanha presidencial da primeira-dama Cristina Fernández de Kirchner e confronta, pela primeira vez, os governos Kirchner e Chávez. O idílio entre o argentino e o venezuelano, que durou mais de três anos, dá sinais de enfraquecimento. Segundo fontes governamentais, Kirchner espera a renúncia do vice-presidente da PDVSA e um pedido de desculpas "muito claro" do governo Chávez. Até o momento, a PDVSA somente emitiu um comunicado morno e carregado de sutilezas, em que indica que promete "investigar" o caso.Uzcateguy é homem de confiança de Chávez, o que reduz as possibilidades de o líder bolivariano atender à exigência de Kirchner. Na sexta-feira, o presidente argentino encontrou-se com Chávez na cidade boliviana de Tarija para a assinatura de uma série de acordos na área energética. Segundo informações extra-oficiais, Kirchner "recriminou asperamente" o líder venezuelano pelo escândalo. Durante o fim de semana, representantes dos dois governos trocaram acusações e, mais uma vez, o chefe do gabinete de ministros de Kirchner, Alberto Fernández, disse que a Venezuela teria de dar explicações. No entanto, o vice-presidente do Congresso Nacional venezuelano, Roberto Hernández, afirmou categoricamente que Chávez não tem motivos para pedir desculpas. O subsecretário argentino de Mercosul, Eduardo Sigal, deu a tréplica: "A Venezuela terá de explicar isso. Trata-se de uma violação da legislação nacional e internacional."Enquanto isso, continuam os rumores sobre o destino que esse dinheiro teria na Argentina. Segundo algumas versões, os dólares iriam para os chavistas argentinos (vários deles serão candidatos a deputado em outubro). Outras indicam que eles se destinavam à campanha eleitoral de Cristina ou às negociatas da PDVSA com argentinos.De acordo com analistas portenhos, o governo Kirchner está fazendo o possível para que somente os venezuelanos apareçam como culpados do caso, numa tentativa de desvincular-se do escândalo. No entanto, a presença de dois argentinos no vôo (em um avião alugado por uma estatal criada por Kirchner) e o fato de eles estarem vinculados ao poderoso ministro de Planejamento Federal e Obras, Julio De Vido, complicam essa manobra. As lideranças da oposição em Buenos Aires acusam o governo Kirchner de estar envolvido em "subornos transnacionais". A promotora María Rivas Diez considera que o caso pode configurar lavagem de dinheiro e analisa pedir a captura internacional de Antonini Wilson.Kirchner encarregou-se de remover do governo um dos argentinos do vôo, Claudio Uberti, diretor do órgão que fiscaliza estradas e pedágios, mas cuja função principal era a intermediação dos negócios comerciais, financeiros e energéticos entre a Argentina e Venezuela.CAMPANHA Cristina está furiosa com as possíveis repercussões do escândalo em sua campanha eleitoral. Segundo informações extra-oficiais, dias atrás ela teria arremessado três copos contra a parede de um salão na residência oficial e desabafado aos gritos: "Néstor, todos os dias aparece um novo problema!"No último mês, casos de corrupção envolveram Felisa Miceli, que teve de renunciar ao Ministério da Economia (por causa do surgimento de uma bolsa com US$ 241 mil no banheiro de seu gabinete); e Romina Picolotti, secretária do Ambiente (acusada de nepotismo e uso indevido de fundos públicos), cuja permanência no cargo está por um fio.Amanhã, Cristina lançará oficialmente a sua chapa presidencial. Em um comício no estádio Luna Park, apresentará seu candidato a vice, Julio Cobos, governador de Mendoza.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.