Kirchner pede pressa em julgamento de golpe de 76

O presidente Néstor Kirchner comandou neste sábado, 23, a principal cerimônia para recordar as vítimas do golpe de 1976, que deu início à mais sangrenta ditadura da História da América do Sul. Na cerimônia do 31º aniversário do golpe, realizado no antigo campo de tortura de La Perla, na província de Córdoba, Kirchner pediu "pressa" à Justiça argentina nos processos que estão sendo realizados atualmente contra os ex-integrantes da última Ditadura Militar (1976-83). "Quero pedir à Justiça, por favor, que os processos sejam acelerados! Precisamos julgamentos e castigos!", exclamou o presidente, diante de milhares de manifestantes.Kirchner criticou diversos tribunais onde estão estancados processos contra os militares há vários anos. "Não quero interferir no Poder Judiciário. Quero que ele funcione! Não quero vingança, quero a Justiça que nosso irmãos e amigos não tiveram!", afirmou.Centenas de militares estão presos em quartéis, prisões comuns ou em prisão domiciliar aguardando julgamento. Desde o fim das Leis do Perdão aos militares, há quase dois anos, apenas cinco foram condenados. Diversas ONGs acusam os juízes de trabalhar de forma "lenta demais".No discurso, Kirchner citou o nome de vários militares diretamente envolvidos com a tortura em La Perla durante a Ditadura, entre os quais o general Luciano Benjamín Menéndez. A multidão respondeu com gritos alusivos à mãe do militar."Fique claro que você é um covarde!", vociferou Kirchner em referência a Menéndez, atualmente em prisão domiciliar preventiva pelos processos que o indicam como o autor de dezenas de graves violações aos Direitos Humanos."Nós, argentinos, sabemos quem é você. Está aí, escondido em tua casa. Mas tinha que estar na prisão comum, onde estão os demais delinqüentes". Menéndez, por ter mais de 70 anos, tem direito à prisão domiciliar.O discurso de Kirchner foi realizado nos terrenos do antigo campo de detenção e tortura de La Perla, na província de Córdoba. Diante de milhares de manifestantes, dezenas de organismos de defesa dos Direitos Humanos, sindicatos e grupos de esquerda, presidente anunciou que La Perla será transformado em um memorial para homenagear as vítimas da repressão militar. "Este foi um campo do horror, comandado por covardes. Peço perdão ao povo argentino, aos detidos e desaparecidos, às avós e filhos dos desaparecidos", disse.La Perla, apenas a 19 quilômetros da segunda maior cidade do país, Córdoba, foi um dos maiores campos de detenção e tortura do país. Por suas instalações de 32 hectares passaram 4.500 pessoas. Dessas, 2.300 teriam sido assassinadas no lugar. Existem suspeitas de que nos arredores de La Perla existam fossas comuns, cavadas pelos prisioneiros horas antes de serem fuzilados.Kirchner também referiu-se a Jorge Julio López, testemunha do julgamento do ex-policial Miguel Etchecolatz, desaparecido há seis meses. López, testemunha crucial no julgamento, desapareceu misteriosamente na véspera do veredito de Etchecolatz, um dos mais famosos torturadores da Ditadura, que foi condenado à prisão perpétua. Os organismos de defesa dos Direitos Humanos consideram que López foi seqüestrado por grupos de extrema direita simpatizantes de Etchecolatz (antes de ser julgado o ex-chefe da Polícia comandava um pequeno grupo de neo-nazistas). Apesar das recompensas oferecidas pelo governo, as forças de segurança não conseguiram encontrar pista alguma do paradeiro de López."Lopez, não foi levado por dois ou três amadores", disparou Kirchner. "Ele foi levado pelos caras de sempre. E nós temos que encontrá-lo!". Depois, arrematou, encerrando o discurso: "viva a pátria, os companhieros desaparecidos, viva a América Latina e os povos irmãos!"Anos de terrorDurante os sete anos de terror, os militares assassinaram mais de 30 mil civis em todo o território argentino. Parte dos mortos eram idosos e crianças. Os assassinatos possuía um amplo leque de modalidades, que iam desde o fuzilamento, à dinamitação de conjuntos de presos vivos e jogar os detidos desde aviões sobre o rio da Prata e o mar. Além disso, os militares seqüestraram 500 bebês, filhos dos desaparecidos políticos. Os integrantes da Ditadura também saquearam os bens dos desaparecidos. A Marinha até abriu uma imobiliária para vender os imóveis que os prisioneiros, ameaçados de morte, passavam aos oficiais, com a presença de tabeliães cúmplices.

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