Kirchner seduz interior empobrecido

Palpalá, cidade que sofreu com privatização de siderúrgica por Menem, atribui pequena recuperação ao atual governo

Roberto Lameirinhas, PALPALÁ, ARGENTINA, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2007 | 00h00

A quase 1.700 quilômetros de Buenos Aires, quase na fronteira com a Bolívia, a cidade de Palpalá, com cerca de 50 mil habitantes, tenta sobreviver. E seus moradores atribuem a possibilidade de sobrevida à administração de Néstor Kirchner, que abriu os cofres federais em seu mandato para custear programas assistenciais em quase todos os outros rincões da empobrecida "Argentina profunda". A primeira-dama e senadora, Cristina Kirchner, deve receber avassaladora maioria dos votos do interior nas eleições presidenciais de domingo."Aqui não há nenhum espaço para outros candidatos", diz ao Estado a vendedora de flores Nelly Cortéz, na praça principal da cidade. "Estamos e estaremos sempre com Néstor, Cristina e nosso intendente (prefeito) Alberto ?Gringo? Ortiz." Palpalá praticamente faliu quando a sua principal fonte de empregos, a Altos Hornos Zapla, primeira siderúrgica argentina, foi privatizada em 1992, pelo então presidente Carlos Menem. A estatal empregava 7 mil trabalhadores no início dos anos 80 e era responsável por aproximadamente outros 3 mil empregos indiretos. Hoje, com o fechamento de duas minas que forneciam matéria-prima para a empresa - ambas localizadas nos arredores da cidade -, o grupo argentino Taselli, que assumiu o controle da siderúrgica, não oferece mais do que 700 empregos em Palpalá.O município - que fora um próspero pólo industrial nas décadas de 60 e 70 - era praticamente uma cidade morta em meados dos anos 90. Da época da bonança, havia restado apenas a contaminação por chumbo e outros metais pesados dos terrenos de pelo menos 30% da área de Palpalá. Revoltados, ex-funcionários da siderúrgica e outros desempregados deram início aos bloqueios de estrada e piquetes de dezembro de 2001. Os protestos depois se espalhariam como um rastilho de pólvora por todo o território argentino num movimento que culminaria com a renúncia do presidente Fernando de La Rúa, incapaz de conter o assombroso aumento da pobreza na Argentina.Logo depois de assumir o poder, Kirchner agiu rapidamente para desativar a bomba-relógio social em que Palpalá e outras cidades da remota Província de Jujuy - uma das mais pobres da Argentina - se haviam convertido. Injetou alguns milhões de dólares em recursos de emergência na região na tentativa de ampliar o número de postos de trabalho no setor de serviços e instalou frentes de trabalho do "Plan Trabajar", que oferecia uma ajuda de custo mensal de US$ 50 aos desempregados que se dispusessem a realizar tarefas de limpeza pública e em pequenas obras."Hoje, estamos nos recuperando graças a programas importantes, que têm como objetivo transformar Palpalá num pólo desportivo e de turismo ecológico", diz o prefeito Ortiz, em plena campanha eleitoral para obter um terceiro mandato de quatro anos na eleição municipal que também ocorrerá no domingo. Ele é tão favorito nessa corrida quanto Cristina Kirchner, de quem é fanático cabo eleitoral na cidade. Ortiz afirmou ao Estado que esperava a visita de Cristina em Palpalá na última semana de campanha, mas a assessoria da candidata presidencial não tinha nenhuma informação que confirmasse uma viagem à cidade. "Sou um peronista histórico", declara Ortiz. "Mas há peronistas e peronistas. A política econômica neoliberal de Menem (que também é peronista) causou um desastre aqui e em toda a Argentina. Os radicais (políticos da União Cívica Radical, como De La Rúa) mostraram-se incapazes de conter a tragédia iniciada por Menem. Por isso, quase toda a população daqui está com Kirchner."

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