Kirchner: sociedade também foi responsável por golpe

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, disse nesta sexta-feira que, além dos militares, outros setores da sociedade podem ser responsabilizados pela ditadura que governou o país entre 1976 e 1983: "setores da imprensa, da Igreja, políticos" e parte da sociedade civil, disse o presidente."A ditadura não se reduziu a um fenômeno protagonizado pelas forças armadas e nem todos reconheceram sua responsabilidade", afirmou Kirchner durante um ato realizado em Buenos Aires para lembrar o 30º aniversário do golpe que deu início à ditadura mais sangrenta da história do país.Kirchner comentou os boatos sobre uma possível anulação dos indultos concedidos em 1990. Ele disse que é "a Justiça" que deve decidir sobre o decreto de Carlos Menem, que deu a liberdade aos militares responsáveis pela ditadura.Contudo, rodeado por ministros, governadores e centenas de pessoas, o presidente lamentou o fato de que "os verdadeiros donos deste modelo não sofreram castigo algum" e pediu à Justiça que anule os indultos concedidos por Menem aos militares em 1990.O governante definiu os chamados "anos de chumbo" como "a mais cruel das experiências antidemocráticas" na Argentina, e lembrou que "o povo que não conhece o seu passado corre o risco de repeti-lo"."Muitos querem dar este período por encerrado, argumentando que o esquecimento facilita a reconciliação. Pelo contrário. A memória é um dever, uma necessidade ética e política da sociedade", destacou o presidente, durante o seu discurso no Colégio Militar, nos arredores de Buenos Aires.O chefe de Estado também responsabilizou o ministro da Economia do período militar, Alfredo José Martínez de Hoz, apontado como "cérebro" do modelo que causou "exclusão, pobreza, endividamento e fuga de capitais".O governante disse que o Dia da Memória, em que o golpe é lembrado, "é um dia de luto e homenagem às vítimas e serve para a reflexão crítica sobre esta grande tragédia argentina", iniciada em 24 de março de 1976."Mais do que as vítimas que morreram na ditadura, a sociedade foi o principal alvo da mensagem do terror generalizado" durante o regime que, segundo entidades de defesa dos direitos humanos, deixou cerca de 30 mil desaparecidos.O presidente lembrou que durante a ditadura muitas pessoas foram seqüestradas, torturadas e mortas. E se definiu como um dos jovens militantes que naqueles anos estavam "comprometidos com a Pátria".ManifestaçõesEm todo o país, milhares de argentinos lembram o 30º aniversário do golpe militar com atos e manifestações.Num dos principais atos programados, integrantes de 370 organizações sociais e políticas partirão do Congresso em direção à Praça de Maio para lembrar às vítimas do golpe militar com o lema "Trinta anos: memória, justiça, verdade".Na praça, integrantes das organizações irão ler um documento e a Carta Aberta à ditadura militar, escrita pelo jornalista desaparecido Rodolfo Walsh.A carta denunciava diversas atrocidades cometidas na época, como as torturas praticadas pelos militares em 400 centros de detenção clandestinos.A Praça de Maio também foi palco da noite de vigília organizada pela Associação das Mães da Praça de Maio, que se prolongou até as 3h da manhã de sexta-feira, hora do golpe que levou o país à ditadura militar.A lembrança do 30º aniversário do golpe começou há uma semana, com várias marchas, exposições e obras de arte, a publicação de livros e atos em todo o país.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.