Kirchnerismo opõe famílias de mortos

Marcha em memória do promotor Alberto Nisman acirra divisão entre parentes de vítimas do atentado contra associação israelita

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 02h01

Entre os 400 mil argentinos que marcharam sob guarda-chuvas na quarta-feira em Buenos Aires, estava Sofía Guterman. Em 21 de julho de 1994, ela faltou a um protesto também sob temporal, três dias depois do atentado investigado pelo promotor Alberto Nisman. Sofía ainda procurava o corpo da filha Andrea nas ruínas da Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) e parentes das 85 vítimas eram um bloco imune à política.

As fissuras iniciadas com as decepções na investigação tornaram-se rachaduras em 2013, quando a presidente Cristina Kirchner bancou a assinatura de um acordo com o Irã, segundo o qual altos funcionários iranianos culpados pela Justiça argentina seriam ouvidos em seu país, em uma espécie de Comissão de Verdade. A maior parte das famílias foi contrária.

Quando Nisman acusou a presidente de usar esse pacto para fins comerciais - impulsionando uma troca de grãos por petróleo - e foi encontrado morto quatro dias depois, a polarização que atingiu o país terminou de distanciar as famílias com as quais Nisman regularmente se encontrava. Os graus de adesão à marcha em sua homenagem são sinal dessa ruptura.

"Ele nos dizia que era ameaçado, que estava prestes a conseguir um avanço importante, mas tudo era muito lento. Decidi ir à marcha porque ele morreu tentando achar a verdade que queremos saber", diz Sofía.

Sua filha, professora de jardim de infância então com 28 anos, foi à Amia em busca de emprego. O corpo foi identificado sete dias depois, por uma medalha e uma pulseira. "Quando telefonaram do necrotério dizendo que a tinham encontrado, perguntei 'ela está viva?'", lembra Sofía, para quem Andrea, se não estivesse entre as vítimas, teria ido à marcha de quarta-feira.

Sofía, entretanto, deixou de frequentar, a cada 18 de julho, os atos oficiais em homenagem às vítimas. "Virou um discurso político de três ou quatro alinhados ao governo", afirma, referindo-se ao grupo de parentes 18J (mais informações nesta página).

O mesmo ocorreu com  Luis Czyzewski, que perdeu a filha Paola, então com 21 anos. Ele não foi ao ato de 1994 porque estava no enterro. "Estive no 18J até seis anos atrás, quando começaram a tomar partido. Sem estar ligado ao governo, fico mais à vontade para dizer o que está certo. Não faço questão de ser convidado da presidente", diz o auditor, que trabalhava no cemitério da Amia no momento da explosão. Paola visitava a mãe, que trabalhava na Amia. Desceu para buscar um café no momento em que o carro-bomba foi detonado. A mãe saiu ilesa.

A marcha por Nisman, convocada por promotores e juízes, foi atacada pelo kirchnerismo, que a considerou um ato opositor. Executivo e Judiciário enfrentam uma crise, com seguidas derrotas judiciais do governo em investigações de corrupção sobre a cúpula da administração. Na marcha de quarta-feira, embora não houvesse faixas ou bandeiras políticas, as demandas iam além do esclarecimento da morte. Por isso, grupos de parentes ligados ao kirchnerismo não compareceram.

Outros, como o Apemia, dirigido por Laura Ginsberg, recomendaram a seus integrantes que não fossem por razões mais sutis. "Fizemos uma marcha no dia 4 em que exigíamos coisas concretas. Esse ato do qual se apropriaram alguns promotores não tinha nenhuma reivindicação e ganhou contornos políticos", disse ao Estado Laura, que perdeu o marido José Ginsberg, aos 43 anos, no atentado. Entre as exigências feitas por seu grupo estão o esclarecimento do caso Nisman, do atentado e a abertura dos arquivos do serviço secreto, suspeito de envolvimento na morte do promotor. Segundo ela, as divisões entre os parentes das vítimas ocorrem por razões políticas.

"Estive no ato de 1994 e era uma causa basicamente judaica. Na marcha de Nisman, havia múltiplas demandas, entre elas o atentado e sua denúncia, mas também o autoritarismo e a mentira. O diagnóstico da doença que temos como sociedade passa por dizer o que pensamos, não achar que é 'problema do outro'", afirma Waldo Wolff, vice-presidente da Delegação de Associações Israelitas-Argentinas. "Essa divisão entre parentes não é casual e as grandes diferenças começaram nesse governo. Uma estratégia para dividir que passou por todos os setores. Pelo nosso também."

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