Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Kirchnerista acusado de narcotráfico provoca crise interna

Número 2 do governo argentino se defende e diz que denúncia sobre venda de efedrina é parte de estratégia rival em meio a disputa eleitoral

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2015 | 20h47

(Atualizada às 7h30 de 4/08) BUENOS AIRES - O n.º 2 do governo kirchnerista, o chefe de gabinete Aníbal Fernández, provocou nesta segunda-feira, 3, uma divisão em seu grupo político, a seis dias da primária que definirá quais candidatos disputarão a eleição de outubro. Após ser acusado de ligação com o narcotráfico, Fernández afirmou que integrantes de seu partido financiaram a denúncia para tirá-lo da luta pelo governo da Província de Buenos Aires.

A conexão entre Fernández, o tráfico de efedrina e um triplo homicídio foi feita na noite de domingo, no programa Periodismo para Todos do jornalista Jorge Lanata. Nele, um dos condenados pelo assassinato de três empresários do ramo de farmácias há sete anos em General Rodríguez, na região metropolitana de Buenos Aires, atribui a Fernández, então ministro de Segurança e Justiça, a autoria intelectual do crime.

Martín Lanatta, que cumpre pena de prisão perpétua, afirma ainda ter levado à casa de Fernández, com um traficante mexicano, pagamentos de US$ 2 milhões e US$ 3 milhões referentes à venda de efedrina, droga sintética geralmente apresentada em cápsulas. “O negócio (da droga) acabou dominado por Fernández e pelo setor de inteligência”, disse. Em escutas sobre o tráfico feitas na época, o elo no governo era apelidado de “A Morsa”. Fernández mantém um espesso bigode.

O dirigente kirchnerista, uma espécie de porta-voz do governo, reagiu na manhã de segunda-feira. “É uma agressão superficial, financiada por milhões de meus rivais na primária da Frente para a Vitória”, afirmou. Fernández desqualificou o depoimento de “um condenado a perpétua que não tem nada a perder” e afirmou que ele provavelmente levou “algum dinheiro”.

O chefe de gabinete atacou também o emissor da reportagem, o Canal 13, do Grupo Clarín, com quem o governo mantém uma disputa judicial. A Lei de Mídia, criada no governo de Cristina Kirchner, determina o desmembramento do grupo, o que não ocorreu em razão de liminares. Ele recorreu à Justiça com uma ação civil e penal contra o canal e o jornalista.

“Veem Osama bin Laden, Saddam Hussein, eu e Hitler. Que uma mídia tão grande faça semelhante m... é impossível de acreditar.” Antes da transmissão, no domingo, ele usou o Twitter para desacreditar o programa por “trazer um tema que tem 7 anos a 7 dias da eleição”.

Fernández disputa o direito de concorrer a governador da Província de Buenos Aires pelo kirchnerismo com o presidente da Câmara dos Deputados, Julián Domínguez.

Quem vencer a primária é o favorito para assumir o comando da província, que tem 37% dos eleitores do país, e suceder a Daniel Scioli, candidato único do kirchnerismo à presidência. Enquanto alguns institutos apontam ampla vantagem de Fernández, outros mostram perda de votos. “O fato de que Aníbal (Fernández) seja vítima de uma operação de imprensa não o habilita a me acusar”, respondeu Domínguez, em uma cisão que estimulou opositores a opinar.

Questionado se colocaria sua mão no fogo por Fernández, o principal rival de Scioli na disputa pela Casa Rosada, Mauricio Macri, disse que não. “Esqueça, tenho só duas.” Outro opositor, Sergio Massa, considerou gravíssima a acusação e pediu à Argentina que “declare guerra ao narcotráfico”.

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