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Kirchnerista tenta reverter quadro

Scioli venceu primeiro turno, mas aparece atrás de Macri em todas as pesquisas a uma semana de eleição presidencial argentina

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2015 | 10h09

BUENOS AIRES - O vendedor ambulante Pablo Pergolesi e o ex-fazendeiro Eduardo Segre têm esperança que o debate de hoje marque uma reviravolta para o governista Daniel Scioli. Segundo as pesquisas publicadas durante o segundo turno, ele está entre 3 e 8 pontos porcentuais atrás.

Embora tenha vencido o primeiro turno há três semanas, saiu politicamente derrotado porque esperava uma eleição rápida e obteve uma margem estreita (37% ante 34,1% do conservador Mauricio Macri).

O primeiro vive na Villa 31, onde complementa com a venda de rua a pensão por invalidez de 3 mil pesos (R$ 1,2 mil), que ganha desde um acidente de carro há três anos. O segundo mora na Recoleta, em um de seus quatro apartamentos – aluga os outros três, o que lhe garante renda de 20 mil pesos (R$ 8 mil).

Pergolesi não tem reclamações sobre a economia, tema sobre o qual Macri tem concentrado seus ataques ao governo kirchnerista. À inflação e ao controle sobre o câmbio, o conservador acrescenta como críticas a paralisia do comércio exterior, os impostos e o déficit fiscal de 7% do PIB.

O vendedor ambulante diz não ter ideia do que isso significa. Sustenta a família complementando a renda com o plano social pago aos argentinos que mantêm os filhos na escola. “Hoje em dia se vive. Aumentaram muito os benefícios, as oportunidades de conseguir um crédito”, afirma o ambulante, que trabalhava como taxista antes de capotar o carro. “Os preços sobem, mas também sobe minha pensão”, resume.

O ex-fazendeiro Segre admite distorções na economia, mas não vê em Macri condições de resolvê-las. “Ele não tem uma ideia própria, tudo o que diz foi ensaiado. Não tem capacidade moral ou intelectual para merecer ser presidente”, opina.

Em educação, Macri reconhece no kirchnerismo o mérito de ter aumentado o orçamento, mas critica sua aplicação. Para Pergolesi, ele não tem razão para reclamar. “A educação melhorou. Lembro que não podia mandar os filhos ao colégio porque não podia comprar um livro. Hoje quando vai ao colégio dão um computador para que estude”, diz, referindo-se ao programa que dá um laptop aos alunos.

O kirchnerismo é acusado de criar universidades que descentralizaram o ensino, mas foram ocupadas por militantes. “É verdade, mas pelo menos as fez. Me interessa é que tenha feito”, defende Segre.

Segurança. Macri acusa o adversário, governador há oito anos da Província de Buenos Aires, de ter permitido que o narcotráfico dominasse certas partes da região mais populosa do país. “Não sei como parar isso. Os filhos dos filhos estão cada vez mais horríveis. Te matam por um celular”, desabafa o vendedor ambulante. Na opinião do ex-fazendeiro, em todo o mundo há mais droga e mais delinquência. “Na capital (governada por Macri) também há droga, delinquência e assassinato.”

Na província de 37% dos eleitores, Macri avançou sobre áreas de classe média e pobres historicamente peronistas. Para Scioli, o duelo é uma oportunidade de recuperar terreno nessa região, cujos eleitores certamente já votaram no peronismo e se desiludiram com o kirchnerismo. O grande triunfo da coalizão de direita de Macri (Cambiemos) foi levar a Província de Buenos Aires, administrada há oito anos por Scioli e há 28 anos pelo peronismo – do qual o kirchnerismo é uma corrente.

No primeiro turno, em vantagem em pesquisas que o colocavam perto de uma vitória, Scioli preferiu não correr o risco de dizer isso a Macri pessoalmente. Faltou ao debate com cinco opositores, no mesmo local.

Democracia. Se em pontos como educação e segurança os dois defensores de Scioli apelam mais ao fato de que Macri não fez melhor, na questão das instituições democráticas ambos defendem o estilo da presidente Cristina Kirchner, apesar dos os ataques à imprensa, à Justiça e à oposição.

O morador da Recoleta se apresenta como um “cristinista” convertido. “Eu não gostava dela. Me tornei cristinista por Macri, pela imprensa que critica absolutamente tudo o que ela faz. Comecei a pensar que ninguém pode estar errado em tudo. Acho que ela começou a contra-atacar uma oposição impiedosa”, argumenta. Para ele, Cristina é muito superior como política e estadista em relação a Scioli, que considera “uma boa pessoa com boas intenções”.

O camelô Pargolesi confessa desconhecer uma ofensiva da presidente contra instituições. Diz apenas que gosta do estilo dela por que fala claro. “É uma menina muito lutadora. É real. Ela te diz as coisas de frente, pense o que pense, é direta. É assim e não vão mudar seu pensamento. Para mim é excelente. Vai para frente e diz as coisas, gostem ou não”, afirma.

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