Kirchneristas aprovam projetos a ‘toque de caixa’ no Congresso

Apesar de sessão tumultuada, maioria das 90 propostas votadas pela base de Cristina é vista como irrelevante

O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 23h07

BUENOS AIRES - A duas semanas da posse de um novo presidente, a bancada kirchnerista usou a maioria que ainda tem na Câmara dos Deputados para aprovar nesta quinta-feira cerca de 90 projetos de lei, na sessão mais tumultuada do ano no Congresso argentino.

Embora houvesse apenas uma lei considerada relevante pelo kirchnerismo – a que criava uma estatal carbonífera na Província de Santa Cruz, berço político da família presidencial –, o volume de leis da votação expressa foi acompanhado com perplexidade pela oposição, que se retirou do plenário denunciando um abuso de poder do grupo político que perdeu a eleição de domingo.

“Qual é a razão para alterar a paz democrática em uma transição que tem de ser normal? Terminam hoje as operações expressas, a partir do dia 10 será preciso negociar”, reclamou o deputado da União Cívica Radical (UCR), Mario Negri, maior partido da coalizão Cambiemos, do presidente eleito Mauricio Macri. Outro deputado da oposição, Federico Pinedo, chefe do bloco da legenda criada por Macri há 10 anos, o Proposta Republicana (PRO), bateu na tecla do abuso de poder. “Estão terminando como começaram. É uma falta de respeito com o povo que acaba de votar”, disse.

Embora o kirchnerismo tenha conseguido levar a votação adiante, houve duas boas notícias para Macri. A primeira é que a Frente Renovadora, comandada pelo ex-kirchnerista Sergio Massa, mostrou-se coesa ao lado da oposição. Se essa união se mantiver durante o próximo mandato, o presidente conseguirá os votos necessários para garantir a governabilidade pelo menos na Câmara, onde o kirchnerismo já não terá a maioria absoluta. No Senado, Macri precisará negociar, pois o grupo de Cristina Kirchner ampliou a vantagem que já tinha na Casa.

A segunda notícia positiva para o presidente eleito é a dificuldade com que o kirchnerismo reuniu o quórum. No meio da sessão, três deputados da base aliada abandonaram o plenário.

Fora do Congresso e nas galerias, sindicalistas interessados na aprovação de projetos específicos pressionavam os parlamentares com gritos e canções normalmente entoadas em estádios de futebol. Depois de duas horas e meia, os três parlamentares de La Rioja, província em que o ex-presidente Carlos Menem tem forte influência, foram convencidos a voltar à votação.

Transição. A oposição admitiu que o kirchnerismo tinha legitimidade legal para conduzir a sessão, mas contestou a conveniência de fazê-lo quando um novo grupo de parlamentares e um novo presidente assumem o poder no dia 10. Na terça-feira, Cristina recebeu Macri na Quinta de Olivos, residência oficial que ele ocupará. Ao sair, ele afirmou que o encontro tinha sido improdutivo. Conforme o presidente eleito, Cristina ofereceu um ministro para ajudar na passagem do poder só a partir do dia 9, véspera da posse.

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