Kissinger e o limite do realismo

Política realista evita questões delicadas, como os direitos humanos, e prejudica a difusão de valores americanos

Michael Gerson, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2010 | 00h00

No início de sua função de conselheiro de Segurança Nacional do presidente Richard Nixon, Henry Kissinger fez uma visita à sua pátria. O governo da Alemanha Ocidental sugeriu à imprensa que Kissinger pretendia visitar alguns parentes. "Que diabos eles estão publicando?", desabafou ele com seus assessores. "Meus parentes viraram sabão."

Curto, grosso e verdadeiro, Kissinger havia deixado a Alemanha em agosto de 1938 como um refugiado de 15 anos, três meses antes da Noite dos Cristais (quando lojas, casas e sinagogas foram saqueadas e destruídas pelos nazistas). Seu tio-avô, três tias e outros parentes foram assassinados no Holocausto.

Por isso, é estarrecedor ouvir Kissinger, uma épica vida depois, dizer a Nixon, em uma gravação arranhada de 1.º de março de 1973: "Vamos encarar os fatos: a emigração de judeus da União Soviética não é problema da política externa americana. Se eles puserem judeus em câmaras de gás na União Soviética, isto não é um problema americano. Pode ser um problema humanitário."

Alguns comentaristas tentaram dar uma explicação psicológica para esse incidente, algo como as atribulações de um judeu numa Casa Branca antissemita. Mas esse esforço não é necessário. As palavras de Kissinger não foram a expressão de uma idiossincrasia, mas de um argumento.

Em 1969, ele havia declarado publicamente: "Julgaremos outros países, incluindo países comunistas, com base em suas ações, não em suas ideologias domésticas." Essa é uma afirmação comum de uma escola de política externa chamada "realista" - a de que tudo o que realmente importa é o comportamento externo de regimes, que sua conduta interna não diz respeito aos interesses americanos. Essa visão é popular hoje em dia e está em ascensão entre os pensadores da política externa. Kissinger estava sendo apenas pouco sentimental em sua aplicação.

Em contexto. Respondendo à divulgação recente da gravação, Kissinger disse que suas palavras "devem ser vistas no contexto da época". Esse contexto era o debate sobre a Emenda Jackson-Vanik, de 1974. O governo soviético - que tanto praticava o antissemitismo quanto se ressentia da fuga de cérebros com a saída de judeus - havia imposto pesadas multas a emigrantes.

O senador Henry Jackson e o deputado Charles Vanik, respaldados por grupos de judeus americanos, responderam com uma proposta de emenda que condicionava as relações comerciais normais com a União Soviética à liberdade de emigrar.

Kissinger acreditava que a distensão com a União Soviética era de uma importância extrema e questões de direitos humanos só deveriam ser levantadas discretamente, por um canal diplomático separado. "A comunidade judaica nesse país, sobre essa questão, está se comportando de maneira inconsciente. Está se comportando de maneira traidora", disse Nixon.

A emenda Jackson-Vanik, porém, acabou se tornando um ponto nevrálgico na Guerra Fria. Após uma queda inicial na emigração, a legislação exerceu duas décadas de pressão sobre os soviéticos, resultando em um aumento dos níveis de emigração. A lei promoveu uma das vantagens ideológicas mais poderosas contra Moscou ao demonstrar a fraqueza de um sistema que precisava construir muros para impedir que seu povo fugisse. Essa ênfase em direitos humanos inspirou não só os refuseniks (judeus soviéticos impedidos de emigrar), mas outros grupos e nacionalidades que habitavam a prisão comunista.

A emenda Jackson-Vanik foi tanto uma rejeição ao realismo de Kissinger quanto uma prévia do reaganismo. Ela declarava que regimes opressores são mais propensos a ameaçar seus vizinhos, colocando os direitos humanos mais perto do centro dos interesses americanos. A lei elevou os padrões de dignidade humana que eram ameaças diretas a regimes fundados na sua negação.

Kissinger não é um simples vilão, porque ele não é simples em nada. Complexidade é o seu credo. Em outras circunstâncias, ele foi um amigo do Estado de Israel. Ele pilotou habilmente em um período difícil da Guerra Fria. Em escritos posteriores, reconheceu o papel do idealismo na sustentação do engajamento global americano.

Essa citação de 37 anos não caracteriza toda uma carreira. No entanto, ilustra a estreiteza do realismo em política externa. Ela abriga uma visão de poder tristemente limitada, desconsiderando as vantagens ideológicas americanas nas lutas ideológicas globais.

Os realistas sustentam, com frequência, uma visão simplista das relações de grandes potências, afirmando que qualquer pressão humanitária sobre a Rússia ou a China causará o desmoronamento de todo o edifício da ordem mundial. Isto impede a possibilidade de uma relação madura com outros países onde os EUA tanto sustentam seus valores como perseguem interesses comuns.

Desse episódio histórico, fica claro que doses repetidas de realismo na política externa podem embotar a consciência. No governo do presidente Nixon, a ausência de sentimento humano era vista como prova de firmeza mental - uma atmosfera que diminuía o próprio governo. Os realistas desdenham das distinções maniqueístas entre bem e mal, luz e escuridão. No entanto, no mundo além do bem e do mal, alguns podem ser facilmente destinados às câmaras de gás. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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