Valentin Flauraud / Reuters
Valentin Flauraud / Reuters

Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU, morre aos 80 anos

O primeiro negro a comandar a entidade ganhou um Nobel da Paz, mas acabou perseguido por decidir enfrentar o governo dos EUA

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2018 | 07h13
Atualizado 20 Agosto 2018 | 17h59

GENEBRA - O ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, morreu neste sábado, 18, aos 80 anos. A fundação que leva seu nome anunciou sua morte, por meio de um comunicado, apenas indicando que ele teria sofrido uma doença súbita. Nascido em Gana em 1938, o africano, à frente da organização internacional por dez anos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 2001.

Annan, que comandou a organização entre 1997 e 2006, foi internado às pressas num hospital de Berna, Suíça. António Guterres, atual secretário-geral da ONU, emitiu um comunicado expressando sua “profunda tristeza”. “De muitas formas, Annan era a ONU. Ele subiu dentro da organização para liderá-la ao novo milênio, com dignidade e determinação”, escreveu.  

Nos últimos dez anos, ela havia se dedicado a mediar conflitos, com resultados positivos no Quênia. Mas sem sucesso na Síria. Na condição de mediador, ele acusou as potências de não querer a paz em Damasco. 

O lema de Annan era manter o diálogo com todos para buscar a paz, até mesmo com ditadores. Mas sua passagem pela ONU não deixou de ser alvo de críticas. Nos anos 90, era ele o chefe do Departamento de Operações de Paz, quando o genocídio de Ruanda ocorreu. A ONU – e seu departamento – foram acusados de não terem conseguido evitar a onda de violência que deixou 800 mil mortos. 

Ainda assim, ele foi escolhido para comandar a entidade, em 1997. Enquanto o mundo ainda se recuperava dos atentados de setembro de 2001, os organizadores do Prêmio Nobel decidiram dar ao africano e à ONU a distinção, na esperança de enviar um sinal aos líderes internacionais sobre a importância da luta pela paz. 

Annan teve seu mandato marcado pela decisão de denunciar como “ilegal” a guerra de George W. Bush no Iraque. A partir de então, passou a ser alvo de ataques por parte da diplomacia americana.

Depressão

O roteiro do drama vivido pelo ganês no comando da diplomacia da ONU levou-o à depressão e ao sumiço de sua voz. Abalado pela decisão dos EUA de invadir o Iraque, seguida pela morte, em Bagdá, do enviado especial e amigo pessoal Sérgio Vieira de Mello, e depois por denúncias de corrupção, Annan deu sinais de que abandonaria o cargo

As revelações são de Fred Eckhart, que por oito anos foi o porta-voz de Annan na ONU e publicou o livro de memórias Kofi Annan sobre o primeiro negro a liderar o órgão. Em entrevista ao Estado, Eckhart revelou como o secretário-geral entrou em rota de colisão com o governo americano em razão do Iraque. Annan tinha recebido aval da Casa Branca para comandar a organização em substituição ao egípcio Boutros Boutros-Ghali, cujo mandato à frente da ONU foi considerado “desastroso” por Washington. 

Annan, porém, também acabou sendo alvo de ataques. “Quem enfrenta os EUA sabe que sofrerá retaliações e foi isso o que ocorreu”, contou Eckhart. “Annan viu a Carta da ONU ser rasgada na sua cara”, disse em relação à decisão dos americanos de ignorar o Conselho de Segurança, adotar a estratégia de ataques preventivos e rever toda a questão da tortura. 

Sua crise pessoal agravou-se com o atentado contra a sede da ONU em Bagdá em que Vieira de Mello e outras 22 pessoas morreram. No livro, Eckhart revela que o envio do amigo a Bagdá foi a pedido dos EUA. Para Annan, o dia do atentado – 19 de agosto de 2003 – foi o pior de seu mandato. Quando Annan finalmente alertou que a guerra do Iraque era ilegal, em uma entrevista à BBC, Eckhart disse ter advertido o secretário-geral de que teria problemas. O que se seguiu foi uma série de acusações de corrupção contra Annan, a maioria vinda de aliados do governo Bush.

Escândalo

Após enfrentar os EUA e se posicionar contra a invasão do Iraque, Koffi Annan foi acusado de envolvimento em um escândalo de propinas envolvendo o programa Petróleo por Alimentos, que tentava garantir que a população iraquiana continuasse a receber ajuda, apesar do embargo econômico imposto ao regime de Saddam Hussein.

Segundo Fred Eckhart, que foi porta-voz de Annan, “tudo foi um grande cinismo”. “Nem Annan nem sua mulher, Nane, estavam preparados. Mas ele manteve uma posição digna”, afirmou. 

Em dezembro de 2004, Annan foi convidado pelo embaixador americano Richard Holbrooke para uma reunião. O recado era claro: “Os EUA não pediriam sua cabeça e permitiriam que terminasse o mandato. Mas não moveriam uma palha para impedir sua queda.” 

A ONU passou a ser alvo de uma investigação que, meses depois, acabou identificando 2.200 empresas em 66 países que pagaram US$ 1,8 bilhão em propinas ao governo de Saddam Hussein para garantir acesso ao petróleo. A conclusão foi de que Annan, de fato, teve problemas para gerenciar o programa, mas o africano não foi indiciado por corrupção. Seu filho, Kojo Annan, também foi suspeito de ter se beneficiado do esquema, mas quando o resultado da investigação foi divulgado, inocentando-o, era tarde demais: a imagem do secretário-geral estava arranhada. 

Anos depois, o africano admitiria que o caso o testou como chefe da ONU e como pai. Ainda assim, deixou o cargo como uma espécie de “astro da diplomacia”. Em seu discurso de posse, o novo secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon elogiou a elegância do terno de Annan, mas prometeu “limpar” a ONU. Annan respondeu: “Quando você conseguir limpar a ONU, te dou o telefone do meu alfaiate.” 

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