Kosovo ameaça declarar separação

ONU recebe relatório sobre província sérvia que, a partir de hoje, pode proclamar-se independente a qualquer momento

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2007 | 00h00

Diplomatas dos EUA, da União Européia (UE) e da Rússia entregam hoje ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, um relatório sobre os resultados da negociação entre sérvios e albaneses para o status de Kosovo. De acordo com o primeiro-ministro kosovar, Hashmin Thaci, a partir de agora a independência da província pode ser declarada a qualquer momento.Em novembro, no calor da campanha eleitoral em Kosovo, Thaci afirmou categoricamente que a região declararia sua independência unilateralmente logo após a entrega desse documento. Depois de eleito, longe das câmeras de TV e pressionado por diplomatas ocidentais, no entanto, ele aceitou não tomar nenhuma decisão antes de consultar os EUA e a UE. O alemão Wolfgang Ischinger, representante da UE na troika - que é conhecido o conselho de negociadores formado por EUA, UE, Rússia, Sérvia e albaneses kosovares - disse que o relatório de hoje vai apenas constatar a falta de acordo entre ambos os lados e não fará nenhuma alusão sobre o que fazer daqui para frente.Sérvia e Kosovo têm posições irreconciliáveis. Durante as negociações, os sérvios ofereceram o máximo de autonomia, bandeira, hino e até uma seleção de futebol. Belgrado só controlaria a política externa e sobre o patrulhamento das fronteiras. A maioria albanesa, contudo, não aceita outra coisa que não a independência total.O assunto agora será discutido no Conselho de Segurança da ONU dia 19. Como ninguém espera um acordo, a diplomacia americana deve dar sinal verde para que os kosovares dêem seu grito de independência em janeiro ou fevereiro, abrindo um leque de conseqüências, uma mais catastrófica do que a outra.EFEITO CASCATA"A independência de Kosovo abriria um precedente para vários outros movimentos separatistas", disse ao Estado, por telefone, Andrei Tsygankov, cientista político da Universidade de São Francisco, nos EUA.Kosovo tem 2 milhões de habitantes, dos quais 95% são albaneses e 100 mil sérvios. A região é parte da Sérvia. A divisão de um Estado multinacional seria um convite para que minorias em outras partes do mundo também reivindiquem a emancipação. Num continente abarrotado de países multinacionais como a Europa, Kosovo pode ser sinônimo de um desarranjo gigantesco.De acordo com Tsygankov, as primeiras regiões que exigiriam o mesmo tratamento seriam a Abkházia e a Ossétia do Sul, de maioria russa, que se separariam da Geórgia, e Nagorno-Karabach, de maioria armênia, que ficaria independente do Azerbaijão. "Isso incendiaria o Cáucaso", disse.O medo de estabelecer uma jurisprudência é a maior razão de a UE estar dividida sobre o assunto. Espanha, Eslováquia, Hungria, Grécia, Bulgária, Chipre e Romênia - que convivem com minorias étnicas - são contra a independência de Kosovo.Existe também oposição fora do bloco. A Turquia, por exemplo, apesar das boas relações com os albaneses, evita o tema exatamente porque tem de lidar com uma minoria curda em seu território. Embora esteja distante do conflito, a China segue o mesmo caminho. "O governo chinês não fala abertamente, mas se a questão for ao Conselho de Segurança, certamente ele vetaria a independência por causa do Tibete e Taiwan", disse o cientista político Baohui Zhang, da Universidade de Lingnan, em Hong Kong.Já os russos não querem Kosovo independente por uma série de razões. Além da afinidade histórica e religiosa, a Rússia é a maior fonte de recursos externos da Sérvia, que retribui jurando fidelidade a Moscou. Além disso, o separatismo também é sensível ao Kremlin, que não tolera o nacionalismo checheno. A favor dos albaneses estão os EUA e a maior parte da UE, principalmente França, Grã-Bretanha, Alemanha e Itália. Para Richard Weitz, do Instituto Hudson, de Nova York, a razão de tanto empenho dos americanos pela independência de Kosovo é o entendimento do Ocidente de que a demora em resolver a questão levaria à retomada da guerra. "A independência é a única forma de evitar um novo confronto", disse.A intromissão dos russos no caso acabou se tornando mais um ponto de atrito do Kremlin com a Casa Branca. Pior para os albaneses. "Nosso maior erro foi não ter resolvido essa questão quando a Rússia estava enfraquecida", afirmou o economista albanês Shpend Ahmeti, do Instituto para Estudos Avançados, de Pristina.O cenário mais provável, segundo a maioria dos analistas, é que Kosovo declare sua independência, que seria reconhecida por parte da UE e pelos EUA, mas não pela Sérvia, Rússia e vários outros países. O novo país, porém, nunca conseguirá um lugar na ONU, já que Rússia e China têm poder de vetar a entrada de novos membros.Caso a independência seja mesmo declarada, o governo sérvio diz ter um plano de ação para responder à altura. A primeira medida deve ser o fechamento das fronteiras e um bloqueio comercial a Kosovo. Cerca de 70% do comércio kosovar depende da Sérvia. Belgrado, que fornece a metade da energia elétrica da província, poderia também interromper o fornecimento de luz, deixando os albaneses na escuridão em pleno inverno.

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