Kosovo matava sérvios para tirar órgãos

Documento sobre abusos do Exército de Libertação do Kosovo, nos anos 90, relata atrocidades cometidas com prisioneiros de guerra

AP e REUTERS, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Dick Marty, magistrado suíço e membro da assembleia do Conselho da Europa, deu detalhes sobre o relatório que elaborou sobre os abusos do Exército de Libertação do Kosovo (ELK) durante os anos 90. Segundo Marty, soldados kosovares mantinham prisioneiros sérvios bem tratados em fazendas, fábricas e casas. Quando a venda de órgãos estava acertada, eles eram levados para a Albânia e recebiam um tiro na cabeça. Fígados e rins eram retirados e vendidos.

O relatório foi divulgado na quinta-feira e aponta o primeiro-ministro de Kosovo, Hashim Thaci, como um dos chefes do tráfico de órgãos na região. "Thaci era considerado pelos serviços de inteligência de muitos países como o mais perigoso dos chefões do submundo", diz o texto.

Para elaborar o documento, Marty ouviu o depoimento de soldados, vítimas, parentes de desaparecidos, magistrados, policiais kosovares e membros da Cruz Vermelha. "No fundo, isso é uma coisa que muita gente sabe ali, mas ninguém conta", afirmou o suíço ao jornal El País.

A guerra em Kosovo, em 1998 e 1999, matou cerca de 12 mil pessoas e desalojou mais de 1 milhão. O conflito foi travado entre sérvios e kosovares, de origem albanesa, que buscavam a separação da província. A limpeza étnica e os crimes cometidos por forças da Sérvia serviram para justificar a intervenção da Otan e a independência de Kosovo. Uma década depois, no entanto, surgem os primeiros indícios de violações cometidas também pelos kosovares - até 1998, o ELK era considerado uma organização terrorista por EUA e Grã-Bretanha.

"Estou chocado. Muitos órgãos internacionais sabiam dos fatos, mas preferiram ficar em silêncio por razões políticas", disse Marty, numa crítica à campanha de vitimização dos albaneses para justificar a independência de Kosovo. "A Justiça não pode ser em sentido único."

O relatório conta ainda como os presos eram transportados para a Albânia - que apoiava o ELK por razões étnicas - em carros sem registro e denuncia a existência de clínicas de extermínio. Segundo depoimentos, as vítimas sabiam que morreriam e teriam os órgãos roubados.

Thaci, reeleito premiê kosovar no domingo, negou as acusações, disse que usará todos os meios para se defender e afirmou que o objetivo do relatório é "prejudicar a imagem do ELK e a independência do país".

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