Kremlin cala divergências com controle de redes de TV

Críticos do governo têm imagens apagadas no vídeo

Clifford J. Levy, The New York Times, Moscou, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2008 | 00h00

No fim do ano passado, num programa de entrevistas, Mikhail Delyagin, um conhecido analista político, usou palavras ásperas a respeito do então presidente Vladimir Putin. Quando o programa foi transmitido, porém, Delyagin não apareceu na tela. Não só seus comentários foram cortados, como ele também foi retirado digitalmente do programa, como um camarada caído em desgraça apagado de uma velha foto da era soviética (mais informações nesta página). Talvez, no caso de Delyagin, os técnicos tenham trabalhado depressa demais, porque deixaram suas pernas sem corpo em uma das tomadas.Mais tarde, soube-se que o analista foi posto por algum tempo na chamada "lista dos censurados" - que reúne os adversários políticos e críticos do governo que foram barrados dos programas de TV pelo Kremlin. A lista é mais uma indicação de que Putin conta cada vez mais com as redes de televisão controladas pelo Kremlin para consolidar seu poder.Os aliados de outrora de Putin, como Mikhail Kasyanov, seu ex-primeiro-ministro, e Andrei Illarionov, seu ex-principal assessor econômico, sumiram. Garry Kasparov, o ex-campeão de xadrez e líder da oposição, foi banido. E não se trata apenas dos políticos. Em abril, o grupo de rock Televizor foi impedido de se apresentar em uma emissora depois que seus integrantes participaram de uma manifestação da oposição.Altos funcionários do governo desmentem a existência de uma lista deste tipo, afirmando que pessoas hostis ao Kremlin não aparecem na TV simplesmente porque suas opiniões não são notícia. Em entrevista, alguns jornalistas afirmaram que não acreditavam que o Kremlin tivesse uma lista de pessoas barradas, mas que as redes operam de acordo com uma lista informal deste teor que atende às preferências do Kremlin.Embora o governo vise principalmente a TV porque a sua audiência é maior, muitas estações de rádio e jornais também se conformam à lista, ignorando ou diminuindo a importância da oposição. Há exceções: alguns jornais publicam regularmente comentários críticos sobre Putin e também as opiniões dos que estão na lista. Além disso, a internet não é censurada, e contém muitas críticas ao governo. Aparentemente, o Kremlin tolera as críticas nestes veículos porque eles têm um alcance limitado em comparação com as grandes redes de televisão no país.

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