Sergey Ponomarev/The New York Times
Sergey Ponomarev/The New York Times

Kremlin oferece vacina grátis aos russos, que seguem céticos sobre eficácia

Pesquisa feita em outubro mostrou que mais da metade dos entrevistados, 59%, não receberiam a imunização contra o coronavírus; apenas 27% confiam nos dados oficiais sobre a covid-19 no país

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 10h30

MOSCOU - Aleksei Zakharov, um professor de economia de Moscou, injetou a vacina russa contra o coronavírus em seu braço no fim de semana. Conseguir a dose foi uma decisão fácil, disse ele - não porque o governo russo disse que era seguro, mas porque dezenas de russos compartilharam sua experiência nas redes sociais.

“Eu confio na coleta de informações (por redes sociais) muito mais do que no que o Estado diz, pelo menos antes que os resultados dos testes estejam disponíveis e publicados em uma publicação médica”, disse Zakharov, 44, em entrevista por telefone na segunda-feira, 7, já sem febre moderada - um efeito colateral da vacina. “Não há opção segura e sem risco aqui. Ou você toma a vacina ou corre o risco de ficar doente”.

A Rússia disponibilizou sua vacina contra o coronavírus gratuitamente nos últimos dias para professores, assistentes médicos e funcionários do serviço social com menos de 61 anos em Moscou. Porém, ainda mais do que no Ocidente, a falta de confiança está prejudicando o lançamento de uma vacina pela Rússia: os cientistas do país podem muito bem ter feito grandes avanços no combate à pandemia, mas muitos russos não acreditam.

Geopolítica

Enquanto a desconfiança cresce, o país tem média de 500 mortes por dia. O governo, em parte, é o culpado. O presidente Vladimir Putin proclamou em agosto que a Rússia se tornou o primeiro país do mundo a aprovar uma vacina para o novo coronavírus, com grande alarde na mídia estatal, embora não tenha sido testada em um ensaio médico em larga escala.

Putin disse que a vacina funcionou "com eficácia suficiente", dada a emergência de saúde, mas os críticos acusaram-no de estar causando um curto-circuito no processo estabelecido há muito tempo para desenvolver vacinas seguras.

Em levantamento posterior, um instituto de pesquisas independente, o Levada Center, descobriu que a ação bombástica pode ter apenas aprofundado as suspeitas dos russos: em outubro, 59% dos entrevistados disseram que não receberiam uma vacina contra o coronavírus, mesmo que fosse voluntária e gratuita.

Denis Volkov, vice-diretor da Levada, disse que a resposta típica era: “Por um lado, estamos felizes por sermos os primeiros. Mas não vamos tomar nós mesmos - vamos deixá-la passar pelas aprovações.”

“Não estou planejando ser vacinado porque metade das pessoas diz que não é uma ideia particularmente boa”, disse Valery Patrin, um músico de orquestra de jazz de 21 anos, em uma entrevista em Moscou na segunda-feira. “Não há como a vacina ser testada normalmente.”

Líder da oposição se mantém cético

Aleksei Navalni, o líder da oposição russa que agora se recupera na Alemanha de um ataque de agente nervoso, também expressou dúvidas sobre a segurança da vacina no sábado, conclamando altos funcionários do governo a se vacinarem “sob o olhar de médicos e jornalistas.”

Embora muitos membros da elite russa - desde altos executivos de negócios e governadores ao editor da rede de televisão RT do Kremlin - tenham dito que já receberam a vacina, o próprio Putin não tomou, embora diga que uma de suas filhas sim.

A entidade governamental russa que fabrica a vacina que agora está sendo distribuída afirma que seu produto é 95% eficaz, mas especialistas externos não acreditam nessas afirmações. O nome da vacina, Sputnik V, sugere que o Kremlin vê a vacina como parte de sua competição com o Ocidente: o Sputnik foi o primeiro satélite lançado pela União Soviética, em 1957, um ponto alto de Moscou durante a Guerra Fria.

“Nossa Sputnik V é despretensiosa e confiável, como o rifle Kalashnikov”, disse o apresentador de televisão estatal Dmitri Kiselyov em seu programa no mês passado, descrevendo a vacina russa como superior àquela co-desenvolvida pela empresa americana Pfizer.

Em uma clínica comunitária estatal no bairro de Golyanovo, nos arredores de Moscou, na manhã de segunda-feira, um fluxo constante de pessoas que já haviam se inscrito para um horário online apresentaram identificação e papelada mostrando que trabalhavam na educação, medicina ou serviços sociais.

“Temos um sentimento: orgulho”, disse Maria V. Sokolova, médica-chefe da clínica. “Afinal, fomos os primeiros a desenvolver uma vacina e agora somos os primeiros no mundo a iniciar a vacinação.”

De fato, a Rússia está avançando com sua aprovação e administração da vacinação mais rápido do que países ocidentais, embora o lançamento tenha sido prejudicado por desafios de produção. Na quarta passada, o ministro da saúde do país, Mikhail Murashko, disse que mais de 100 mil pessoas já foram vacinadas com o Sputnik V, incluindo militares.

Mas isso é uma fração da população do país de 140 milhões. Durante o verão, a empresa de pesquisas Ipsos descobriu que os russos são mais céticos em relação a uma vacina contra o coronavírus do que o público em qualquer outro lugar nos 27 países investigados. Apenas 27% dos russos confiam nos dados oficiais sobre o coronavírus, de acordo com Levada.

Dos que não acreditam, cerca de metade acredita que os números são muito altos e metade acredita que são muito baixos. A desconfiança está de acordo com o desencanto geral dos russos com Putin, após anos de estagnação econômica. “Há uma descrença nas informações oficiais, por padrão”, disse Volkov, do Levada.

No entanto, também existem muitos críticos de Putin que ainda veem as vacinas fabricadas na Rússia - três estão em testes - como o melhor caminho para seu país sair da pandemia. Alguns russos que participam dos testes têm compartilhado seus resultados e efeitos colaterais em grupos no Facebook e no aplicativo de mensagens Telegram.

A conclusão geral dos voluntários: a vacina Sputnik V parece persuadir o corpo a produzir anticorpos para a covid-19, principalmente sem efeitos colaterais graves. A organizadora de um grupo de voluntários do Facebook, Vera Smirnova, disse que costumava criticar o governo, mas ficou desapontada com o fato de muitos liberais russos rejeitarem a vacina por causa de sua associação com o Kremlin.

"Isso me deixa muito triste. O preço disso será vidas humanas ”, disse Smirnova, que tem 42 anos e trabalha como professora universitária em Moscou. “Acho que este é um momento em que, talvez, devamos tentar confiar nas autoridades, porque nos próximos meses não teremos outra opção.”

Vacina russa e o passado soviético

Em 1991, após o fim da URSS e do Comecon (mercado comum dos países comunistas), a Rússia estava praticamente sem indústria farmacêutica, por isso há muito tempo depende dos países ocidentais. Mas o país lançou um programa de substituição de importações para reduzir essa dependência.

"As vacinas produzidas na Rússia são geralmente vacinas estrangeiras. Por outro lado, esta é uma das primeiras concebidas exclusivamente na Rússia, é um orgulho nacional", diz Jean de Gliniasty, especialista russo do instituto IRIS e ex-embaixador da França em Moscou.

“Isso simboliza o retorno da Rússia ao grupo dos grandes da matéria farmacêutica. Eles vão tentar aproveitar ao máximo os benefícios em termos de soft power (poder brando)”.   Depois dos hidrocarbonetos, armas e energia atômica, Moscou gostaria de adicionar a vacina ao seu arsenal de influência econômica e diplomática e garantir uma fatia do mercado dos países em desenvolvimento.

E a primeira vacina também simboliza o mantra político do Kremlin por duas décadas: a Rússia está de volta. “É uma forma de mostrar que o país é capaz de fazer parte da elite científica mundial, de se sair melhor que os países desenvolvidos”, diz a cientista política Tatiana Stanovaya, fundadora do centro de análises R.Politik. /AFP e New York Times

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