Kremlin se aproxima do Irã

Ganhos econômicos com fim de sanções são palpáveis para a Rússia e duvidosos para os EUA

LEONID, BERSHIDSKY, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2015 | 02h00

É muito mais fácil explicar os motivos pelos quais o presidente russo, Vladimir Putin, quer um acordo multilateral com o Irã do que os do presidente americano, Barack Obama. Os ganhos políticos e econômicos decorrentes da retirada das sanções impostas pela ONU são palpáveis para a Rússia, mas duvidosos para os EUA.

As ações de Putin desde a aprovação, em 2 de abril, de um acordo provisório sobre o programa nuclear do Irã indicam claramente que ele pretende ampliar a parceria de Moscou com Teerã. Uma delas refere-se às vendas de armas, como indica a recente decisão de autorizar o envio de mísseis antiaéreos S-300, que até agora se encontravam em ponto morto, e a outra é uma série de acordos na área energética, como exemplifica uma possível troca de petróleo por bens.

Nenhuma das decisões exige a retirada das sanções internacionais contra o Irã - trata-se de restrições voluntárias que Putin poderia suspender mesmo sem a perspectiva de um acordo multilateral. Ele tenta, antes de mais nada, adiantar-se ao ingresso no mercado iraniano de seus adversários ocidentais, visando áreas em que a Rússia é competitiva. Os ganhos potenciais são consideráveis.

Entre 1989 e 1991, a União Soviética assinou com o Irã acordos para o fornecimento de armas no valor de US$ 5,1 bilhões. Com isso, o Irã tornou-se um dos maiores clientes da indústria armamentista soviética e, após o colapso da URSS, a indústria de armas da Rússia independente e desprovida de recursos, continuou ganhando dinheiro, no início dos anos 90, fornecendo ao Irã tanques, veículos blindados para o transporte de tropas e munições. A Rússia ajudou os aiatolás a construir uma fábrica de tanques em Dorud e outra para a produção de veículos de transporte de pessoal em Teerã.

Então os EUA intervieram. Em 1995, o predecessor de Putin, Boris Yeltsin, acertou com o então presidente americano, Bill Clinton, que a Rússia encerraria toda cooperação militar com o Irã até 1999 e em troca os EUA prometiam sua cooperação na área de tecnologia de armamento. O acordo foi concluído com um protocolo secreto assinado pelo primeiro-ministro russo Viktor Chernomyrdin e pelo vice-presidente americano Al Gore. Mas a Rússia nunca ficou satisfeita com o acordo, principalmente porque os EUA não estavam realmente interessados em ajudar Moscou a desenvolver sua indústria armamentista. Portanto, depois da chegada de Putin ao poder, a Rússia repudiou o protocolo Gore-Chernomyrdin em novembro de 2000.

Mas isso não favoreceu a volta de uma cooperação em ampla escala com o Irã. Os iranianos adquiriram alguns helicópteros e aviões de guerra, mas deixaram de considerar a Rússia uma parceira confiável, por temer que ela voltasse a se mostrar vulnerável às pressões americanas. Tais temores confirmaram-se quando, em 2010, a Rússia recuou num acordo firmado em 2007 para o fornecimento de sistemas de mísseis S-300 no valor de US$ 800 milhões. Embora as sanções da ONU não proibissem a venda dessas armas de defesa, o então presidente Dmitri Medvedev prometeu a Obama que os mísseis não seriam vendidos. O Irã processou a Rússia por danos e a cooperação entre os dois países, na área da defesa, voltou a ser interrompida.

Putin assinala que os dias em que a Rússia obedecia aos EUA na exportação de armas acabaram. Os líderes iranianos agora têm razões para acreditar que as relações entre Moscou e Washington são as mais frias desde o final dos anos 80.

Há ainda o acordo de troca de petróleo por produtos, que foi discutido por cerca de um ano. Ele envolveria fornecimentos de cerca de 500 mil barris diários de petróleo iraniano em troca de alimentos e produtos industrializados russos, possibilitando a recuperação de cerca de 50% do volume de exportações que o Irã perdeu em razão das sanções internacionais. Este acordo não violaria as sanções da ONU, e driblaria as restrições financeiras impostas pelos EUA e pela Europa por meio do uso do escambo. Nos últimos dias, funcionários russos informaram que a troca já está ocorrendo.

A disposição da Rússia de adotar as trocas é um sinal ao regime iraniano de que, embora as nações ocidentais ainda hesitem em renovar os laços com ele, a Rússia está aberta à conclusão imediata de grandes acordos na área da energia, antes mesmo de um acordo na questão nuclear.

Os benefícios para a Rússia são evidentes. Com a troca de petróleo por produtos, os fornecimentos globais de petróleo aumentarão as pressões sobre os preços, um resultado negativo para um importante exportador de petróleo como a Rússia. Mas Putin já tem planos de contingência para sobreviver ao preço de US$ 40 por barril. Já os produtores de óleo de xisto dos EUA, onerados pelas dívidas, sofreriam ainda mais com uma nova queda dos preços. Para Putin, a crise do óleo de xisto nos EUA é extremamente desejável, assim como para os governantes da Arábia Saudita e do Irã.

Fazer mais negócios com o Irã também ajudaria Putin a constituir uma aliança política com um dos principais atores regionais do Oriente Médio, cimentada pelo forte antiamericanismo em Moscou e em Teerã. O líder russo vem explorando a vantagem tática que possui sobre os EUA nas conversações com o Irã: ele poderá ser o primeiro a dar início a uma reaproximação com os líderes iranianos, sem se preocupar excessivamente com o fato de eles cumprirem ou não as exigências previstas no acordo nuclear.

Ao contrário dos EUA, a Rússia não tem obrigações para com Israel, não tem uma oposição interna que tente impedir a cooperação com o Irã, e nenhum risco de que, sem o acordo, possa ser obrigado a iniciar uma guerra que não deseja. Mas como a possibilidade de um acordo multilateral deter o avanço nuclear é pouco clara, seus benefícios para Obama são menos óbvios do que para Putin. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COLUNISTA E ESCRITOR

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