AFP PHOTO / ERNESTO BENAVIDES
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'Kuczynski está sob pressão do fujimorismo'

Sem maioria no Congresso, líder peruano já teve três ministros derrubados pelo partido de Keiko Fujimori

Entrevista com

Adriana Urrutia, cientista política da PUC do Peru

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2017 | 05h00

O pedido de prisão preventiva do ex-presidente peruano Ollanta Humala, parte da investigação sobre pagamento de propinas da Odebrecht no país, é um complicador para o presidente Pedro Pablo Kuczysnki, há um ano à frente de um governo com minoria no Congresso e alvo de acosso constante do fujimorismo. Para a cientista política Adriana Urrutia, da PUC do Peru, o presidente está numa encruzilhada, dividido entre as denúncias de corrupção que também o atingem e a pressão para libertar Alberto Fujimori. 

Qual a repercussão do pedido de prisão preventiva do ex-presidente Ollanta Humala no cenário político peruano? 

É a mesma situação que determinou o pedido de prisão do ex-presidente Alejandro Toledo. O juiz decidirá hoje se existem provas suficientes para acusar o ex-presidente Humala, e aparentemente elas ainda não existem. Há apenas o relato da delação de Marcelo Odebrecht. O que é meio esquisito é que isso ocorreu no mesmo dia da reunião do presidente Kuczysnki com Keiko Fujimori (para falar do indulto a Alberto Fujimori, pai de Keiko e ex-presidente condenado por corrupção e crimes contra a humanidade). 

Que impacto a prisão dele, caso se concretize, pode ter no curto prazo?São dois efeitos particulares. Haverá uma reacomodação da aplicação da Justiça. Humala tem as mesmas denúncias de outros políticos daqui, mas sem provas suficientes para condená-lo. Keiko, por exemplo, tem contra si testemunhas de corrupção, mas também sem provas documentais. Se o pedido contra Humala for acatado, os outros pedidos de políticos suspeitos no caso do Odebrecht também serão. 

Quem pode ser denunciado?

O presidente também está envolvido no caso Odebrecht porque era Ministro da Economia de Toledo e chefiou o instituto responsável por distribuir as licitações de obras públicas, na época do projeto da Transoceânica. 

Se a Justiça aceitar a denúncia com base apenas nas delações em tese também seria ruim para Kuczynski? 

Sim, porque a Justiça teria de tratar todos da mesma maneira. A estratégia dos acusados é dizer que apenas as delações são insuficientes. 

Como a população tem reagido a esse escândalo?

A população está em compasso de espera. É como aquela novela brasileira: A Próxima Vítima. Cada hora é um que é alvo. Agora se espera para saber quem é o próximo culpado. E no nível do Parlamento ocorre algo similar: a maioria de Keiko tem feito julgamentos políticos contra ministros de Estado. Neste ano, já destituíram três deles: o da Educação, o dos Transportes e o da Economia. O fujimorismo tem acusado cada vez mais os membros do gabinete do presidente de corrupção.

 

Existe a possibilidade num futuro próximo de o fujimorismo tentar destituir o presidente, caso um processo seja aberto nas mesmas bases do de Humala?

Sim, o partido pode tentar declarar vaga a presidência e dizer que o presidente é incapaz de exercer o cargo. Por isso, a estratégia do governo tem sido procurar o diálogo e tentar negociar. E o que o Executivo pode oferecer, que interessa ao fujimorismo, é a libertação de Alberto Fujimori. Só que essa negociação não tem respaldo popular. Na sexta-feira, houve uma manifestação contra o indulto em Lima. A estratégia do presidente é bem arriscada. Ele não tem o apoio do fujimorismo nem de quem votou nele por representar o antifujimorismo.

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