'La línea', a fronteira que divide 2 mundos

Barreira isola Tijuana da Califórnia e travessia clandestina já matou milhares

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / TIJUANA, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h09

"La línea" é onipresente no imaginário de Tijuana. Marcada por três barreiras quase intransponíveis, ela separa o mundo mexicano e a Califórnia, uma espécie de terra prometida onde os salários são quatro vezes maiores, a violência é menor e as oportunidades, mais amplas. Transpô-la é a obsessão de imigrantes que estão dispostos a arriscar a vida para chegar do outro lado.

Para os "sem papéis" que não possuem visto de entrada, o caminho é aberto pelos "coiotes", que cobram de US$ 6 mil a US$ 8 mil para levar os indocumentados aos Estados Unidos, por trilhas que cruzam as montanhas ou o deserto.

Nos 15 anos, entre 1998 e 2012, 5.595 pessoas morreram ao tentar cruzar ilegalmente a fronteira do México com os Estados Unidos, número não muito distante dos 6.750 soldados americanos mortos nas guerras do Iraque e do Afeganistão nos últimos 12 anos. Muitos deles são lembrados por cruzes com seus nomes pregadas do lado mexicano da fronteira.

Yadira, de 37 anos, caminhou dois dias, em 2009, para chegar ao outro lado. Antes de conseguir, ela e os outros 14 de seu grupo fracassaram três vezes, quando encontraram "la migra", a polícia de migração americana. "Eles soltavam os cachorros para nos perseguir e tínhamos de correr como loucos."

Depois de viver três anos em Chicago, ela voltou ao México para reencontrar as duas filhas, de 15 e 20 anos. Agora, se prepara para cruzar de novo, apesar dos riscos. "Nós podemos ser sequestradas, violadas, enganadas ou abandonadas no deserto", falou, juntamente com outras mulheres que esperavam em Tijuana o momento certo de atravessar. Nem todas eram mexicanas. Havia duas da Guatemala e uma de Honduras.

O salário é o principal atrativo para Yadira do outro lado da fronteira. "Quando eu estava em Chicago, ganhava US$ 8,25 a hora. Aqui, ganho US$ 5,5 por dia" afirmou. "Eu quero deixar alguma coisa para as minhas filhas, uma casa ou um terreno, e o que eu ganho aqui não dá para isso."

Maria Luz, de 43 anos, aguardava o coiote marcar o dia da travessia. Depois de viverem 27 anos nos EUA como clandestinos, ela e o marido voltaram em 2009, com três dos cinco filhos americanos, e abriram uma casa de bilhar na cidade de Durango.

No último ano, a família começou a ser ameaçada pelos Zetas, cartel de drogas mexicano, que exigia pagamentos para permitir o funcionamento do negócio.

Sob pressão, a família abandonou a cidade. Os três filhos foram mandados de volta para os Estados Unidos e Maria Luz se preparava para cruzar clandestinamente a fronteira.

A assistente social Mary Galván, que trabalha há 19 anos no abrigo das irmãs scalabrinianas para mulheres migrantes em Tijuana, acompanhou o processo de levantamento da barreira entre os dois países. Segundo ela, os atentados de 11 de Setembro "mudaram tudo" e deram origem ao processo de construção da cerca principal, de 6,4 metros de altura.

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