Laço com Pequim divide eleitorado de Taiwan

Futuro das relações com a China torna-se um dos principais temas das eleições taiwanesas do dia 14, que opõem visões de segurança e liberdade

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / TAIPÉ, TAIWAN, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h05

Ocupante de um limbo diplomático no qual não é considerado um país autônomo pela comunidade internacional, Taiwan elege um novo presidente dia 14, numa disputa que opõe a defesa da paz e estabilidade na relação com Pequim à proposta de adoção de medidas que coloquem a ilha no caminho da independência formal da China.

A eleição tem um interesse geopolítico que transcende suas fronteiras e envolve a maior potência global, os EUA, e a principal potência emergente, a China. Pequim considera Taiwan uma província rebelde e ameaça ir à guerra caso a ilha declare independência. Washington é o grande aliado e garantidor da segurança do governo de Taipé e tem a obrigação legal de defender o território em caso de agressão externa, dispositivo que tem como alvo a China.

Preferido das autoridades de Pequim, o presidente Ma Ying-jeou, do Kuomintang, busca a reeleição com uma plataforma que advoga o fortalecimento dos laços econômicos e comerciais com o continente e busca a manutenção do status quo por meio do princípio dos "três nãos": não à independência, não à reunificação e não ao uso da força.

Para a candidata do opositor Partido Democrático Progressista (PDP), Tsai Ing-wei, a política de aproximação com a China adotada nos últimos quatro anos é uma ameaça à soberania de Taiwan e favorece a reunificação com o continente, ambicionada por Pequim.

O relacionamento entre os dois lados do estreito atingiram o momento de maior tranquilidade dos últimos 60 anos durante a gestão de Ma. Acordos assinados por seu governo estabeleceram voos diretos entre Taiwan e a China depois de 59 anos de proibição, abriram a ilha a turistas do continente e ampliaram a possibilidade de investimentos mútuos.

Um dos principais trunfos do presidente foi o acordo de cooperação econômica firmado em 2010, que prevê a redução de tarifas no comércio e é visto como favorável a Taiwan. Nas últimas semanas, Pequim anunciou outras medidas econômicas que beneficiam a ilha, numa tentativa de fortalecer a candidatura de Ma. Para muitos analistas, a eleição é um referendo sobre a política pró-Pequim adotada pelo candidato do Kuomintang.

A pior fase no relacionamento bilateral foi registrada com Chen Shui-bian, do PDP, que governou Taiwan de 2000 a 2008 e adotou uma política agressiva de defesa da independência e confronto com Pequim. Apesar de ter participado da gestão de Chen, Tsai tem uma posição mais moderada e diz que é necessário buscar o consenso interno antes de qualquer decisão sobre o status internacional da ilha.

As autoridades chinesas consideram a ampliação do intercâmbio bilateral como um caminho para a reunificação pacífica e não escondem sua predileção pela continuidade do atual governo. Na última semana de dezembro, o porta-voz do departamento chinês responsável pelo relacionamento com Taiwan, Yang Yi, declarou que a defesa da independência de Taiwan "inevitavelmente" ameaçará o desenvolvimento pacífico do relacionamento entre os dois lados do estreito.

Os eleitores de Tsai acreditam que a aproximação com a China foi longe demais e temem perder direitos e garantias conquistados desde a democratização da região, que realizou seu primeiro pleito direto para presidente em 1996. "O aumento das ligações com a China vai deixar Taiwan cada vez mais frágil e vamos nos tornar parte da China. Hoje tenho liberdade para falar o que quiser e tenho medo de perder a liberdade, os direitos políticos e o respeito aos direitos humanos", disse o professor universitário Shao Shung-yu num comício de Tsai.

A reportagem do Estado foi cercada por vários simpatizantes da candidata, todos com o mesmo discurso: somos um país independente e não queremos fazer parte da China. "Nós gostamos de viver como vivemos e não desejamos ser controlados por outro país", declarou Susan Chen.

Os eleitores de Ma valorizam a paz e a estabilidade e acreditam que o relacionamento com o continente trará benefícios econômicos à ilha. "Nós somos todos chineses", disse Chien Ching-hui, depois de ouvir discurso do presidente numa escola da capital.

Histórico. Taiwan foi ocupada pelos japoneses durante 50 anos e voltou ao domínio chinês em 1945, quando o governo do país estava nas mãos dos nacionalistas do Kuomintang, que lutavam contra os comunistas de Mao Tsé-tung. Derrotados na guerra civil que terminou em 1949, os nacionalistas fugiram para a ilha, onde criaram um governo independente.

"Eu quero um presidente que seja amigável com a China. Meu pai foi soldado na China e tenho parentes lá até hoje", afirmou a professora de inglês Chao Ping, que participava de um comício do Kuomintang que reuniu milhares de simpatizantes. "As pessoas desejam uma vida melhor e para isso é importante ter relação estável e intercâmbio econômico com a China", ressaltou Fu Chung-lin.

Pesquisas de opinião mostram cenários divergentes, que dificultam a previsão do resultado da disputa. Levantamento realizado na última semana de dezembro pela televisão a cabo TVBS dá 44% das intenções de voto ao presidente, 38% à candidata do PDP e 6% a James Soong, dissidente do Kuomintang do Partido Povo Primeiro. Na pesquisa do xfuture.org, do Centro de Projeção de Mercados da Universidade Nacional Chengchi, Tsai aparece em primeiro lugar com 50,4%, Ma recebe 43% e Soong, 7,7%. Em outro levantamento, realizado pela entidade Thinktank, Ma recebe 39,5% e está tecnicamente empatado com Tsai, que tem 39,1%. Nessa pesquisa, Soong aparece com sua melhor performance: 11,1%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.