Reuters/Arquivo
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Lapouge: Kim faz da hecatombe atômica um jogo familiar

Envelhecido, ditador norte-coreano tenta colocar seu filho preferido, Kim Jong-un, em cena

Gilles Lapouge, de O Estado de S. Paulo,

28 de maio de 2009 | 08h11

As tiranias não evoluem com rapidez. São insensíveis ao tempo. A cada ano que passa, o que se vê é a mesma fisionomia paralisada, os mesmos discursos mortos.

 

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A Coreia do Norte é um belo exemplo dessas longas catalepsias. Furiosa contra a Coreia do Sul, que cometeu a indelicadeza de criticar os recentes testes nucleares de Pyongyang, os norte-coreanos anunciaram sua retirada do acordo de armistício de 1953. Kim Jong-il, o "Grande Sol do século 20", repentinamente nos transporta para meio século atrás, para os tempos do general Douglas MacArthur (1880-1964), um dos maiores heróis americanos da 2ª Guerra, e do líder comunista chinês Mao Tsé-tung (1893-1976).

 

Por que esse brusco extremismo da Coreia do Norte? As explicações são inúmeras. Pyongyang não suportou o fato de Seul, logo após os testes nucleares, ter aderido à Iniciativa de Segurança contra Proliferação (PSI, na sigla em inglês), que vigia os navios que podem estar transportando componentes para armas de destruição em massa.

 

Podemos invocar ainda o estado de decomposição da Coreia do Norte, o que explicaria esse comportamento perigoso e insensato, como também a deterioração do líder atual, Kim Jong-il e a sua próxima sucessão.

 

Portanto, devemos examinar essa enigmática linhagem dos Kim, que fez da tirania uma "diversão familiar". Antes de Kim Jong-il, o líder era seu pai, Kim Il-sung, que, ao sentir que suas forças o abandonavam, nomeou seu filho como sucessor.

 

Hoje, o mesmo esquema é montado: Kim Jong-il envelheceu. Aos 68 anos, tem o aspecto de um agonizante, o olhar anuviado, expressa-se lentamente desde que sofreu um derrame cerebral e foi submetido a uma séria operação. Além do que, é diabético e sofre do coração. Assim, ele quer colocar seu filho preferido, Kim Jong-un, em cena. E para isso, reproduz o roteiro já usado outrora em seu favor.

 

Em 1991, Kim Jong-il foi nomeado pelo pai para a Comissão de Defesa, órgão chave do regime. Ora, há um mês, ele agiu da mesma maneira, entronizando seu terceiro filho, Kim Jon-un, de 26 anos, na mesma comissão.

 

Por que Kim Jong-il escolheu o filho mais novo e não um dos dois mais velhos? A resposta é imediata. O mais velho, Kim Jong-nam, de 37 anos, foi preso no Japão em 2001 com um passaporte falso e é frequentador dos luxuosos cassinos de Macau. Assim, perdeu a chance. O segundo, Kim Jon-chol, não vale nada aos olhos do pai: ele é "efeminado".

 

O terceiro, ao contrário, é apresentável. É um esportista, adora artes marciais, venera o ator Jean-Claude Van Damme, fala inglês e estudou na Suíça. Se esse roteiro estiver correto, e se Kim Jong-il prepara de fato o seu desaparecimento, chegará à conclusão de que a "lenda dourada" construída por ele sobre ele, foi uma grande mentira.

 

Nas propagandas que o povo norte-coreano tem de engolir, Kim Jong-il é apresentado como um "dirigente invencível", com "uma bravura de aço", "tão potente como uma arma nuclear". Decididamente, as armas nucleares não são mais o que eram.

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