AP Photo/Alessandra Tarantino
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L’Aquila ainda luta para superar tragédia de 2009

Na mesma área do tremor de quarta-feira, moradores enfrentaram o atraso da reconstrução e são parâmetro para futuro das novas vítimas

Andrei Netto, Enviado Especial / Amatrice e L'Aquila, Itália, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2016 | 05h00

Há sete anos, o comerciante Vito Laterza vive em um dos 4,5 mil apartamentos do projeto apelidado de “Case Berlusconi”, situados em edifícios pré-moldados construídos pelo então primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, como solução emergencial para os desabrigados do terremoto de L’Aquila, na região de Abruzzo. 

O que deveria ser uma alternativa provisória, construída na periferia, virou regra. Devastada em 6 de abril de 2009 por um terremoto, a cidade enfrentou longo atraso na reconstrução, burocracia excessiva e denúncias de corrupção e má administração dos recursos públicos. Hoje, enfrenta o abandono de quem sobreviveu à tragédia.

L’Aquila é o parâmetro de comparação imediato quando se pensa em como será o futuro das regiões de Úmbria e Lazio e de vilarejos como Amatrice, Accumoli, Arquata del Tronto e Pescara del Tronto, devastados por um terremoto na semana passada. Separadas por 50 quilômetros, Amatrice e L’Aquila se situam ao longo da cadeia de montanhas dos Apeninos, sujeita a tremores em razão do atrito entre as placas tectônicas africana e eurasiana, onde se produzem sismos de intensidade média, como o registrado na semana passada, de 6,2 graus na escala Richter. Em 2009, 308 pessoas morreram. Agora, o balanço pode ser ainda maior.

As semelhanças entre os dois abalos sísmicos levou os italianos a lembrar de uma segunda catástrofe vivida por L’Aquila - e que todos temem que tenha réplicas: a catástrofe da incompetência e da apropriação indevida de dinheiro público. 

Há sete anos, quando do terremoto, Berlusconi lançou o Progetto Case, com o objetivo de abrigar por tempo determinado as 4,5 mil famílias desabrigadas pelo tremor. Laterza foi um dos alojados nos prédios da chamada “new town”. Mas um escândalo de corrupção de € 18 milhões envolvendo membros do governo e empreiteiras paralisou os trabalhos, lançando toda a cidade no abandono e na incerteza sobre o futuro.

O resultado é visto nas ruas do centro histórico de L’Aquila: não há comércio, não há clientes, não há trânsito e raros são os pedestres. A demora na reconstrução do centro histórico afastou turistas, fez minguar em 40% o número de estudantes universitários, levou comerciantes à falência - dos 900, restam cerca de 30 - e paralisou a economia do município, que até agora não se reergueu.

Sem perspectiva, 40% dos apartamentos dos “Case Berlusconi” estão vazios, porque moradores se cansaram de esperar por uma resposta do Estado e migraram para outras regiões da Itália. Quem ficou não raro se arrepende. “A prefeitura nos deu incentivos para reabrir negócios. Eu tomei € 60 mil emprestado para abrir minha loja e hoje sou a única luz acesa no centro”, diz Laterza, dono de uma loja especializada em queijos artesanais.

Embora as estimativas de população na cidade girem em torno de 70 mil habitantes, mais ou menos como antes do terremoto, o número esconde a desertificação do centro histórico, abandonado por seus habitantes, que hoje vivem na periferia. A perspectiva é que a reconstrução da cidade leve ainda mais 15 anos - e isso considerando que o ritmo da construção civil, que domina com seus guindastes a paisagem urbana, vá continuar acelerado. Depois de anos de atraso nos trabalhos, L’Aquila tem hoje 1,3 mil obras públicas e privadas em andamento - o que o torna o maior canteiro da Europa. 

Com o investimento, o governo do primeiro-ministro, Matteo Renzi, tenta recuperar o atraso e a má impressão deixada pelo Estado italiano na época de Berlusconi. Na quinta-feira, o premiê falou a jornalistas em Roma por mais de uma hora, prometendo que, no caso de Amatrice, Accumoli, Arquata del Tronto e Pescara del Tronto, o Estado será mais eficiente. Segundo ele, a reconstrução dos vilarejos afetados pelo terremoto é uma urgência do governo e da Itália.

“Nossa prioridade é reconstruir o mais rapidamente possível. Nós não queremos que a população seja obrigada a deixar seus territórios. Queremos tentar manter o maior número possível de pessoas em seus lugares”, explicou o primeiro-ministro. “Temos um compromisso moral com os homens e as mulheres dessas comunidades. Devemos isso à história dessas cidades, que devem ter um futuro, e não permanecerem apenas como uma memória.”

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