Latinos transformaram o Arizona, mas são esquecidos por campanhas políticas

Latinos transformaram o Arizona, mas são esquecidos por campanhas políticas

Latinos transformaram o Arizona - as campanhas políticas lembram que eles existem?

Jose A. Del Real, The Washington Post

31 de julho de 2020 | 07h00

Enquanto crescia, Dora Chavez Anya às vezes sentia como se fosse a única menina negra em toda a cidade de Mesa. Como filha mexicana-americana de um mineiro de cobre, ela lembra que as crianças anglo-saxônicas de seu quarteirão eram proibidas por seus pais de brincar com ela. Colegas na escola às vezes usavam palavras pejorativas para se referir a ela.

Ela se sentia impotente. Ela era impotente.

Mas de sua pitoresca rua suburbana no condado de Maricopa, Arizona, onde viveu todos os seus 60 anos, Dora testemunhou uma mudança dramática.

Os campos agrícolas desafiadores do deserto do East Salt River Valley são coisas do passado e foram substituídos pelo boom dos empreendimentos habitacionais. Também já não existe mais a sensação de Dora ser uma latina solitária em um mundo branco. A maioria de seus vizinhos hoje são mexicanos-americanos como ela.

Agora, Dora espera que as mudanças se traduzam em mais poder político para os latinos do Arizona, muitos dos quais se sentiram alienados pela retórica do Partido Republicano a respeito da justiça racial e imigração. Embora esses eleitores tenham sido historicamente eliminados por estrategistas de campanha nacional, os democratas acreditam cada vez mais que eles poderiam proporcionar margens de votos cruciais para Joe Biden em novembro. Uma vitória na populosa Maricopa para o candidato democrata provavelmente significaria uma vitória estadual no Arizona, que por sua vez poderia ser decisiva na próxima eleição.

Percebendo uma oportunidade, Biden contratou respeitados cabos eleitorais para construir o que eles dizem ser uma campanha competitiva no Arizona, parte de um esforço mais amplo para reforçar o apoio nos estados do campo de batalha presidencial em todo o país. Uma corrida de alto nível no senado dos Estados Unidos e dominada pela raiva em relação a como o Partido Republicano tem tratado a pandemia do novo coronavírus, que devastou o Arizona e afetou desproporcionalmente as comunidades latinas, deram a esses esforços um senso adicional de força e urgência.

Mas as lideranças de longa data do estado permanecem céticas quanto a Biden e os democratas investirem os recursos certos para cortejar os latinos - um grupo diversificado que inclui eleitores que votarão pela primeira vez, liberais e também muitos com tendências socialmente conservadoras e moderadas. Enquanto isso, a Latino Decisions, uma importante empresa de pesquisas de opinião, descobriu recentemente que Biden está ganhando entre os latinos do Arizona, mas tem menor apoio em comparação com Hillary Clinton neste ponto nas eleições de 2016.

Para Dora, as eleições são uma oportunidade de se defender, de mostrar que suas opiniões são importantes e que pessoas como ela têm dignidade.

Mas ela se pergunta se outros supostos eleitores têm a mesma percepção, depois da decepção em tantas eleições anteriores. Mesmo que os eleitores latinos sejam numerosos, ela teme que os políticos não se concentrem nas necessidades das comunidades latinas.

E ela ouviu muitos expressarem a convicção de que seus votos não farão diferença.

"Vivemos em um estado em que nossa voz não contava muito", disse Dora, sentada em sua casa, sozinha, com medo de sair por causa da pandemia. "Eu via as pessoas reclamando a respeito de como seus votos nunca fariam diferença. Elas pensando que somos apenas pessoas marrons e que as pessoas brancas fazem as regras. Mas eu sempre votava. Isso importa. Isso realmente importa."

Trinta e um por cento dos residentes do condado de Maricopa são latinos, segundo dados do censo.

Desde a última eleição presidencial, o número de eleitores do município registrado como democrata foi duas vezes maior que o de republicanos. E há a possibilidade de um crescimento ainda maior para os democratas: estima-se que 100.000 eleitores latinos atingiram a maioridade desde as eleições de meio de mandato de 2018, disse Joseph Garcia, diretor de políticas públicas da Chicanos Por La Causa, uma organização sem fins lucrativos com sede em Phoenix. Ele disse que esses eleitores são cada vez mais democratas.

"Todo ciclo eleitoral me perguntam: 'Quando os latinos vão mostrar sua força nas urnas?' Cinco anos atrás, não havia latinos suficientes com mais de 18 anos. Mas os números agora são diferentes ", afirmou Garcia.

"O condado de Maricopa é a chave para vencer no Arizona, e o Arizona pode ser a chave para quem vencer a eleição em novembro", acrescentou. "Se houver algum deslize no condado, Trump perderá o estado."

Enquanto os recém-chegados ao estado - profissionais atraídos pela economia em expansão e baixos impostos - receberam grande parte do crédito pela mudança para a esquerda na política do estado, são os latinos que viveram e cresceram no Arizona, disse ele, que estão no coração da dinâmica política em mudança do estado.

Ainda há dúvidas a respeito de quão comprometidos os democratas serão com o alcance atingido. Os líderes comunitários de longa data no estado dizem que a convicção geral quanto a baixa participação entre os latinos se tornou, de certa forma, autorrealizável. Enquanto isso, os eleitores republicanos, que tendem a ser mais velhos, têm maior probabilidade de votar.

E mensagens políticas frias não ajudam.

"Às vezes, o discurso se limita ao tema imigração. Isso não é tudo o que é importante para a comunidade latina. A educação é sempre a preocupação número um. As pessoas se preocupam com empregos, desenvolvimento dos trabalhadores, assistência médica e moradia a preços acessíveis", afirmou Garcia.

A campanha de Biden, que lutou para arrecadar fundos em uma primária democrata que geralmente tem a participação de muitas pessoas, está chegando para um esforço final.

E quase metade dos latinos do Arizona, segundo uma pesquisa com eleitores registrados pela Latino Decisions, disse que ainda não havia sido contatada por nenhuma campanha eleitoral. Nesta semana, a campanha de Biden anunciou que havia contratado a Latino Decisions para prestar consultoria em relação ao seu alcance entre latinos.

John Loredo, ex-líder democrata da Câmara dos Deputados do Arizona, afirma que Hillary perdeu no estado para Donald Trump em 3,5 pontos percentuais em 2016 porque os democratas não investiram muitos recursos no Arizona até o sprint final da eleição. As organizações de base latinas usaram seus recursos limitados para derrubar o controverso xerife do condado de Maricopa, Joe Arpaio, um republicano - o que eles conseguiram mesmo com Trump vencendo no condado e no estado.

"Onde as campanhas se concentram, onde há recursos financeiros, na verdade estamos vencendo eleições", disse ele.

Os eleitores latinos já foram cruciais para os democratas, talvez mais do que tenham recebido crédito. Enquanto os democratas buscam repetir o sucesso da senadora Kyrsten Sinema de 2018, o primeiro democrata eleito para o senado dos Estados Unidos desde os anos 80, muitos analistas se concentraram nos eleitores brancos, que ainda representam 75% do eleitorado no Arizona. Eles visam especialmente as mulheres de tendência conservadora que podem ter se desagradado com Trump.

Isso deixa de lado grande parte da história da vitória de Kyrsten: o enorme apoio que ela recebeu dos latinos em todo o estado. As pesquisas de opinião mostram que eles votaram nela em maior número do que no candidato democrata a governador naquele ano, que acabou perdendo para o governador republicano Doug Ducey. Esses eleitores proporcionaram uma margem importante - e potencialmente decisiva - para Kyrsten em uma disputa acirrada em que a maioria dos eleitores brancos não-hispânicos votou em sua adversária, a republicana Martha McSally.

Mario Diaz, consultor democrata em Phoenix, reconheceu os enormes totais de angariação de fundos de Kyrsten e sua "filosofia política muito pragmática", juntamente com sua disposição de criticar os democratas; ela "até elogiou o presidente algumas vezes". E sua mensagem, focada nos moderados, teve a atenção de muitos latinos.

Martha, que perdeu para Kyrsten, mas foi nomeada para uma vaga no senado americano por Ducey no final de 2018, agora está concorrendo novamente - desta vez contra o democrata Mark Kelly, astronauta e marido da ex-deputada democrata Gabby Giffords. A campanha de Kelly tem focado particularmente nos eleitores latinos que a Kyrsten conseguiu alcançar em 2018.

Enquanto isso, os republicanos confiam muito nos eleitores brancos mais velhos para comparecer às urnas e dizem que pretendem investir milhões de dólares em publicidade e iniciativas para angariação de votos, mesmo durante a pandemia.

"Os democratas não têm forte comparecimento às urnas como os republicanos. Do ponto de vista tático, é aí que os republicanos têm a vantagem", disse Max Fose, consultor político do Arizona e ex-assistente de campanha do falecido senador republicano John McCain.

Em entrevistas com os eleitores, a educação e os cuidados com a saúde surgem continuamente como as maiores prioridades políticas, em vez da imigração, que tende a estar mais intimamente associada aos eleitores latinos.

Pedro Ramos, 63 anos, disse que é conservador em questões sociais, como casamento entre pessoas do mesmo sexo e direitos ao aborto - uma frase comum entre os latinos religiosos -, mas, mesmo assim, ele tende a votar nos democratas desde que se tornou cidadão em 1998. Ele disse que apoiava McCain, que morreu em 2018, inclusive quando McCain concorreu à presidência contra Barack Obama em 2008.

Ramos, funcionário de manutenção de uma escola particular e paisagista, disse que definitivamente votará em Biden em novembro.

"Este presidente é muito louco. Ele tem ideias que são muito loucas", disse ele. "Acho que ele tem uma tendência ao racismo. Seus tweets não são apenas contra mexicanos, eles também são contra pessoas negras, contra judeus. Eu não gosto disso."

Seu filho, também chamado Pedro Ramos, 22 anos, apoia fortemente Trump. Uma pesquisa recente do New York Times e do Siena College mostrou que cerca de 25% dos eleitores latinos no Arizona apoiam Trump.

Ramos - o mais novo - disse que não vê a retórica e as políticas de imigração do presidente como inerentemente racistas. Na verdade, ele concorda que o país precisa de controles rígidos de fronteira, mesmo seu pai tendo sido um imigrante ilegal por um tempo. Ele observou que se informa principalmente lendo o site conservador Daily Wire e levantou questões em relação a idade de Biden.

"Do jeito que ele fala, não acho que ele esteja mentalmente ali. Acho que ele é a última opção para a esquerda. Não gosto que sejam pró-aborto", disse ele. "Não sei quem está passando por aquela fronteira, odeio dizer isso. De certa forma, sou pró-muro".

E acrescentou: "Eu sei que por ser hispânico, algumas pessoas dirão que é vergonhoso eu dizer isso. Mas é nisso que acredito".

Existem algumas soluções alternativas embutidas no sistema de registro de eleitores no Arizona, disse Lydia Guzman, diretora de engajamento da Chicanos Por La Causa. Oitenta por cento dos habitantes do Arizona ainda votam pelo correio. E os eleitores aptos podem se registrar online.

Alexis Rodriguez, 20 anos, que mora no sul de Phoenix, tem participado dos esforços para repensar o que é necessário para envolver os eleitores sem poder ir angariar votos de porta em porta ou nos campi das universidades.

"Estamos tentando descobrir como fazer isso digitalmente, o que significa muitas mídias sociais e serviços bancários por telefone", disse Rodriguez, coordenador do programa de campo da Promise Arizona. "A transição tem sido difícil, mas não impossível."

Eles precisarão alcançar eleitores como Vanessa Gonzalez, 40 anos, autônoma que vive em Gilbert. Como outros, ela disse que a história de sua família pesa muito em suas opiniões políticas. Seu avô, cidadão mexicano, mudou-se de estado para estado colhendo algodão quando jovem, antes de abrir sua própria concessionária e se tornar "o único vendedor de carros de língua espanhola em Chandler, Arizona". Ela disse que o senador Bernie Sanders realmente chamou sua atenção como candidato por causa de sua ênfase nas famílias trabalhadoras.

Vanessa votou em Hillary em 2016, mas acredita que outros não levaram a sério as chances de vitória de Trump e não votaram. Ela disse que pretende votar em Biden em novembro e vai votar a favor dos democratas.

"Ele definitivamente não é Bernie Sanders", disse ela sobre Biden. "Mas sinto que, neste momento, não quero que Donald Trump ganhe um segundo mandato na presidência."

Ela está extremamente comprometida neste ciclo para garantir que seus amigos e familiares votem. Às vezes, ela até verifica online se seus amigos estão registrados para votar, caso não tenham se registrado antes.

"Na verdade, sou um pouco conservadora em algumas coisas. Ninguém quer imigração ilegal. Mas também não queremos crianças em gaiolas", disse Dora, proprietária de uma pequena empresa.

Talvez mais do que tudo, disse, ela queira se sentir vista, sentir as necessidades e aspirações de sua comunidade serem importantes para as pessoas no poder.

Várias semanas atrás, ela assistiu a um discurso de Biden e começou a chorar.

"Ele estava repreendendo Trump! Foi lindo", disse ela. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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